quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Refutação as heresias do "Apostolo" Miguel Ângelo da Silva Ferreira



Miguel Ângelo é o fundador da Igreja Evangélica Cristo Vive (Missão Apostólica da Graçade Deus), baseada no Rio de Janeiro. Esta resenha propõe-se a testar os métodos deinterpretação desse autor na obra em consideração, que foi oferecida gratuitamente nosprogramas da Igreja Cristo Vive. A necessidade deste teste deve-se ao fato de o autorcolocar a doutrina da predestinação como um “carro chefe” de seus ensinos. Essadoutrina calvinista, quando exposta corretamente, é ensino bíblico e salutar.Infelizmente, Miguel Ângelo não a ensina da maneira correta. Na realidade, ele presta umdesserviço à verdade bíblica, distorcendo esta doutrina e ofuscando-a, ao colocá-la aolado de vários e graves ensinos falsos, como pretendemos demonstrar a seguir.

O autor afirma a certa altura da obra: “Antes que nossos pais se relacionassemconjugalmente nós já tínhamos tido uma pré-existência. Para mim, pessoalmente, seriamuito triste se descobrisse que a minha existência começou quando eu nasci.” Essadoutrina é considerada por ele como fundamental. Para ele, ao falarmos de pré-existência, trazemos ensinamentos bíblicos que são a alavanca de sustentação da vidaespiritual do cristão. Seus textos de apoio são Efésios 1.4; Jó 38.3-7 e 38.21. Nesteúltimo texto (“Tu o sabes, porque nesse tempo eras nascido, e porque é grande o númerodos teus dias”), Miguel Ângelo conclui que Deus estava afirmando que Jó já existiaquando a terra foi criada! Porém, a conclusão correta é exatamente o oposto. O texto éuma ironia sobre a finitude de Jó. Todo o contexto do capítulo 38 fala desse mesmo tema.Jó não sabe nenhuma das respostas, é finito enquanto Deus é infinito. Não só nessetrecho, mas também em muitos outros, o autor usa expressões que dão a idéia de que osseus argumentos são irrefutáveis, afirmando taxativamente que à luz da Palavra de Deus,nós realmente tivemos uma existência prévia.

Um outro texto usado por Miguel Ângelo para “provar” a pré-existência da alma (que,diga-se de passagem, foi totalmente refutada e rejeitada pelos Pais da Igreja por ensinarimplicitamente a mortífera idéia da divinização do homem) é Jeremias 1.5: “Antes que eute formasse no ventre materno, eu te conheci.” Aqui, como na análise de outros textos,ele comete um erro exegético conhecido como “especificação exagerada.” O mesmo erroaparece nas interpretações dos mórmons de Jeremias 1.5. Os mórmons reivindicam essetexto para justificar a sua opinião de que Jeremias realmente existiu como um “espíritode criança,” como uma “inteligência,” antes de ser concebido. As palavras de Jeremias1.5 quase que poderiam ser assim consideradas se houvesse razões contextuais para sepensar que é esse o seu significado; tais razões, porém, são completamente inexistentes.O que os mórmons realmente estão fazendo é recorrer ao seu livro Pérola de GrandeValor para apresentar o conteúdo de sua doutrina (A Exegese e suas Falácias, pp. 106-107).

Miguel Ângelo também nega a doutrina da Trindade, quando interpreta o texto deGênesis 1.26: “Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme anossa semelhança.” Diz o autor a respeito do texto que Deus não estava falando em Pai,Filho e Espírito Santo. Ele afirma que não há o Deus Pai, o Deus Filho e o Deus EspíritoSanto; quem diz isso é a tradição. Ao final do livro, ele chega a dizer: “Agora nóssabemos que existe um só Deus que é Jesus Cristo, o Soberano e único Senhor, o qualteve três manifestações: o Pai na Criação, o Filho na Redenção e o Espírito Santo, que

manifesta sua graça no seio da Igreja de Jesus Cristo” (p. 88). Com isso, o autor seafasta totalmente de uma das doutrinas mais sólidas e centrais da Bíblia e do cristianismoortodoxo e se aproxima de doutrinas heréticas, como o arianismo das Testemunhas deJeová ou, mais precisamente, do sabelianismo (uma heresia condenada pela igrejaprimitiva), que ensinava que o Pai, o Filho e o Espírito Santo não são pessoas distintas,mas apenas manifestações de Deus. Em vez de afirmar as distinções relacionais daTrindade (conhecida tecnicamente como Trindade ontológica), eles impunham confusão àDivindade.

Mais um exemplo de heresia é o comentário: “O início daqueles que não estão inscritosno livro da vida se deu no momento em que Deus, para justificar a sua ira, por causa dopecado dos primeiros pais, permitiu que Satanás depositasse a sua semente no ventre deEva.” Com isso, Miguel Ângelo quer dizer que o pai de Caim não foi Adão, mas Satanás.No capítulo intitulado “Predestinação x Defeitos do Pecado Original,” o autor é dogmáticoao afirmar: “Sabemos que existem duas sementes sobre a terra. A semente da bênção ea semente da maldição. Se tu não acreditares nisto, podes mudar de vida e encostar atua Bíblia porque estás te enganando a ti mesmo” (p. 99), um ensino, aliás, semelhanteao do livro Princípio Divino, de Sun Myung Moon, o fundador da “Igreja” da Unificação.

Miguel Ângelo afirma que está pregando e ensinando o que nunca ninguém ensinou. Eleestá, de fato, pregando doutrinas que nunca ninguém ensinou na igreja de Cristo. Masdemonstra total desconhecimento da história da igreja ao ressuscitar heresias que jáexistiam no século III. Ele demonstra, na verdade, um grande desconhecimento dahistória da igreja.

No primeiro capítulo, o autor do livro Predestinação: Uma Visão de Deus faz uma misturaconfusa de unitarismo, predestinação, pré-existência da alma, teologia da prosperidade eultra-dispensacionalismo. Muitas vezes, o autor passa de um assunto para outro namesma frase, como, por exemplo, na análise altamente duvidosa de Rm 5.19 (“Porque,como pela desobediência de um só homem muitos se tornaram pecadores, assim tambémpor meio da obediência de um só muitos se tornarão justos”): “Só há um Deus – JesusCristo. E foi por meio dele que muitos se tornaram justos. E por meio dele reinamos emvida. Quando eu recebo um testemunho de uma pessoa que conseguiu uma casa, semprecisar nada pagar, eu estou vendo uma pessoa reinando.”

Na introdução, Miguel Ângelo diz: “Como poderia eu, Apóstolo do Senhor, ocultar estasverdades...” O autor se auto-intitula “apóstolo” (o que por si só é heresia), considera oensino da pré-existência da alma “essencial,” diz que a doutrina da Trindade é “tradição,”ignora a história da igreja, não pratica exegese (que procura o real significado do texto)mas uma eisegese (o ato de um intérprete impor ao texto as suas idéias) e diz que seusensinos são a razão de ser de sua vida. Todos esses são sinais inquietantes de umaconformidade acelerada com os sinais do falso mestre e de uma caminhada para orompimento definitivo dos laços de comunhão com a igreja cristã. Quem conhece ahistória da igreja sabe que os Mórmons, os Testemunhas de Jeová, a Ciência Cristã, osAdventistas do 7º Dia, entre outros, começaram da mesma forma.

— Túlio Cesar Costa Leite


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