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segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Sínodo de Dort - Documento contra a Heresia arminiana




OS CÂNONES DE DORT

ÍNDICE


1o Capítulo
A Divina Eleição e Reprovação 15
Rejeição de Erros 16
2o Capítulo
A Morte de Cristo e a Redenção do Homem por Meio Dela 17
Rejeição de erros 18
3o e 4o Capítulos
A Corrupção do Homem, A Sua Conversão
a Deus e Como Ela Ocorre 19
Rejeição de Erros 20



5o Capítulo
A Perseverança dos Santos 21
Rejeição de Erros 22


Conclusão 23


Glossário 24


OS CÂNONES DE DORT
OS CINCO ARTIGOS DE FÉ SOBRE 0 ARMINIANISMO *


1o CAPITULO DA DOUTRINA:
A DIVINA ELEIÇAO E REPROVAÇÃO*[a]


Artigo 1 ‑ Toda a humanidade é condenável perante Deus
Todos os homens pecaram em Adão, estão debaixo da maldição de Deus e são condenados à morte eterna. Por isso ninguém teria sido injustiçado se ele tivesse resolvido deixar toda a raça humana no pecado e sob a maldição e decidido condená‑la por causa do seu pecado, de acordo com as palavras do apóstolo: ... para que se cole toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus... pois todos pecaram e carecem da glória de Deus..., e ... o salário do pecado é a morte ... (Rm 3.19,23; 6.23).
Artigo 2 ‑ 0 envio do Filho de Deus
Mas nisto se manifestou o amor de Deus em nós, em haver Deus enviado o seu Filho unigênito ao mundo .... ... para que todo o que nele crê não pereça, mos tenha a vida eterna. (lJo 4.9; Jo 3.16).
Artigo 3 ‑ A pregação do Evangelho
Para que os homens sejam conduzidos à fé, Deus envia, em sua misericórdia, mensageiros dessa alegre boa nova a quem e quando ele quer. Pelo ministério deles, os homens são chamados


ao arrependimento e à fé no Cristo crucificado. Porque ... como crerão naquele de quem nada ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão se não forem enviados? (Rm 10.14,15).
Artigo 4 ‑ Um duplo resultado
A ira de Deus permanece sobre aqueles que não crêem no Evangelho. Mas aqueles que o aceitam e abraçam a Jesus, o Salvador, com uma fé verdadeira e viva, são redimidos por ele da ira de Deus e da perdição, e presenteados com a vida eterna (Jo 3.36; Mc 16.16).
Artigo 5 ‑ A causa da incredulidade e a fonte da fé
Em Deus não está, de forma alguma, a causa ou culpa dessa incredulidade. 0 homem tem essa culpa, assim como a de todos os demais pecados. Mas a fé em Jesus Cristo e também a salvação por meio dele são dons gratuitos de Deus, como está escrito: Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus...(Ef 2.8).
Semelhantemente, Porque vos foi concedida a graça de ... crer em Cristo (Fp 1.29).
Artigo 6 ‑ Decreto eterno de Deus
Deus nesta vida concede a fé a alguns enquanto não concede a outros. Isto procede do eterno decreto de Deus. Porque as Escrituras dizem que ele ... faz estas coisas conhecidas desde séculos... e que ... ele faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade ... (At 15.18; Ef 1. 11). De acordo com este decreto, ele graciosamente quebranta os corações dos eleitos, por duros que sejam, e os inclina a crer. Pelo mesmo decreto, entretanto, segundo seu justo juizo, ele deixa os não‑eleitos em sua própria maldade e dureza de coração. E aqui especialmente nos é manifesta a profunda, misericordiosa e ao mesmo tempo justa distinção entre homens que estão sob a mesma condição de perdição. Este é o decreto da eleição e reprovação* revelado na Palavra de Deus.
Ainda que os homens perversos, impuros e instáveis o deturpem, para sua própria perdição, ele dá um inexprimível conforto para as pessoas santas e tementes a Deus.
Artigo 7 ‑ Eleição definida
Esta eleição é o imutável propósito de Deus, pelo qual ele, antes da fundação do mundo, escolheu um número grande e defini~ do de pessoas para a salvação, por graça pura. Estas são escolhidas de acordo com o soberano bom propósito de sua vontade, dentre todo o gênero humano, decaído, por sua própria culpa, de sua integridade original para o pecado e a perdição. Os eleitos não são melhores ou mais dignos que os outros, mas envolvidos na mesma miséria. São escolhidos, porém, em Cristo, a quem Deus constituiu, desde a eternidade, Mediador e Cabeça de todos os eleitos e fundamento da salvação. E, para salvá‑los por Cristo, Deus decidiu dá‑los a ele e efetivamente chamá‑los e atrai‑los à sua comunhão por meio da sua Palavra e de seu Espírito. Em outras palavras, ele decidiu dar‑lhes verdadeira fé em Cristo, justificá‑los, santificá‑los, e depois, tendo‑se guardado poderosamente na comunhão de seu Filho, finalmente glorificá‑los. Deus fez isto para a demonstração de sua misericórdia e para o louvor da riqueza de sua gloriosa graça. Como está escrito ... assim como nos escolheu nele, antes do fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado... E em outro lugar: E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também, glorificou (Ef 1.4‑6; Rm 8.30).
Artigo 8 ‑ Um só decreto de eleição
Esta eleição é múltipla, mas ela é uma e a mesma de todos os que são salvos tanto no Antigo Testamento quanto no Novo Testamento. Pois a Escritura nos prega o único bom propósito e conselho da vontade de Deus, pelo qual ele nos escolheu desde a eternidade, tanto para a graça como para a glória, assim também para a salvação e para o caminho da salvação, o qual preparou para que andássemos nele (Ef 1. 4,5; 2. 10).
Artigo 9 ‑ Eleição não baseado em fé previste
Esta eleição não é baseada em fé prevista, em obediência de fé, santidade ou qualquer boa qualidade ou disposição, que seria uma causa ou condição previamente requerida ao homem para ser escolhido. Ao contrário, esta eleição é para a fé, a santidade, etc. Eleição, portanto, que é a fonte de todos os bens da salvação e, finalmente tem, a própria vida eterna como seu fruto. É conforme o testemunho do apóstolo: Ele ... nos escolheu... não por sermos mas ... para sermos santos e irrepreensíveis perante ele ... (Ef 1.4).
Artigo 10 ‑ Eleição baseada no bom propósito de Deus
A causa desta eleição graciosa é somente o bom propósito de Deus. Este bom propósito não consiste no fato de que dentre todas as condições possíveis Deus tenha escolhido certas qualidades ou ações dos homens como condição para a salvação. Mas este bom propósito consiste no fato de que Deus adotou certas pessoas dentre a multidão inteira de pecadores para ser sua propriedade.
Como está escrito: E ainda não eram os gêmeos nascidos nem tinham praticado o bem ou o mal... já lhe fora dito a ela (Rebeca): 0 mais velho será servo do mais moço. Como está escrito: Amei a Jacó, porém me aborreci de Esaú. E ... creram os que haviam sido destinados para a vida eterna (Rm 9.11‑13; At 13.48).
Artigo 11 ‑ Eleição imutável
Como Deus é supremamente sábio, imutável, onisciente e Todo‑Poderoso, assim sua eleição não pode ser cancelada e depois renovada, nem alterada, revogada ou anulada; nem mesmo podem os eleitos ser rejeitados ou o número deles ser diminuído.
Artigo 12 ‑ A certeza da eleição
Os eleitos recebem, no devido tempo, a certeza da sua eterna e imutável eleição para a salvação, ainda que em vários graus e em medidas desiguais. Eles não a recebem quando curiosamente investigam os mistérios e profundezas de Deus. Mas eles a recebem quando observam em si mesmos, com alegria espiritual e gozo santo, os infalíveis frutos de eleição indicados na Palavra de Deus, tais como uma fé verdadeira em Cristo, um temor filial para com Deus, tristeza por seus pecados contra a vontade de Deus e fome e sede de justiça.
Artigo 13 ‑ 0 valor desta certeza
A consciência e a certeza desta eleição daria aos filhos de Deus maior motivo para se humilharem perante ele, para adorarem a profundidade de sua misericórdia, para se purificarem e para amarem ardentemente aquele que primeiro tanto os amou. Contudo não é absolutamente verdade que esta doutrina da eleição e a reflexão sobre a mesma os façam relaxar na observação dos mandamentos de Deus ou rendam segurança falsa. No justo julgamento de Deus isto ocorre freqüentemente àqueles que se vangloriam levianamente da graça da eleição ou facilmente falam acerca disso, mas se recusam andar nos caminhos dos eleitos.
Artigo 14 ‑ Como a eleição deve ser ensinada
A doutrina da divina eleição, segundo o mui sábio conselho de Deus, foi pregada pelos profetas, por Cristo mesmo e pelos apóstolos, tanto no Antigo Testamento como no Novo Testamento, e depois escrita e entregue a nós através das Escrituras Sagradas. Por isso, também hoje esta doutrina deve ser ensinada no seu devido tempo e lugar na Igreja de Deus, para a qual ela foi particularmente destinada. Ela deve ser ensinada com espírito de discrição, de modo reverente e santo, sem curiosa investigação dos caminhos do Altíssimo, para a glória do santo nome de Deus e consolação vivificante do seu povo.
Artigo 15 ‑ Reprovação* descrita
A Escritura Sagrada mostra e recomenda a nós esta graça eterna e imerecida sobre nossa eleição, especialmente quando, além disso, testifica que nem todos os homens são eleitos; alguns, pois, são preteridos na eleição eterna de Deus. De acordo com seu soberano, justo, irrepreensível e imutável bom propósito, Deus decidiu deixá‑los na miséria comum em que se lançaram por sua própria culpa, não lhes concedendo a fé salvadora e a graça da conversão. Para mostrar sua justiça, decidiu deixá‑los em seus próprios caminhos e debaixo do seu justo julgamento e, finalmente, condená‑los e puni‑los eternamente, não apenas por causa de sua incredulidade, mas também por todos os seus pecados, para mostrar sua justiça. Este é o decreto da reprovação, o qual não torna Deus o autor do pecado (tal pensamento é blasfêmia!), mas o declara o temível, irrepreensível e justo Juiz e Vingador do pecado.
Artigo 16 ‑ Como a doutrina do reprovação* deve ser recebida
Há pessoas que não sentem fortemente a fé viva em Cristo, nem firme confiança no coração, nem paz na boa consciência, nem zelo pela obediência filial e pela glorificação de Deus por meio de Cristo.
Apesar disso elas usam os meios pelos quais Deus prometeu operar tais coisas em nós. Elas não devem desanimar quando a reprovação for mencionada nem contar a si mesmas entre os reprovados. Pelo contrário, devem continuar diligentemente no uso desses meios, desejando fervorosamente dias de graça mais abundante e esperando‑os com reverência e humildade. Não devem se assustar de maneira nenhuma com a doutrina da reprovação os que desejam seriamente se converter a Deus, agradar só a ele e serem libertos do corpo de morte, mas ainda não podem chegar no ponto que gostariam no caminho da piedade e da fé. 0 Deus misericordioso prometeu não apagar a torcida que fumega, nem esmagar a cana quebrada. Mas esta doutrina é certamente assustadora para os que não contam com Deus e o Salvador Jesus Cristo e se entregaram completamente às preocupações do mundo e aos desejos da carne, enquanto não se convertem seriamente a Deus.
Artigo 17 ‑ Filhos de crentes que morrem na infância
Devemos julgar a respeito da vontade de Deus com base na sua Palavra. Ela testifica que os filhos de crentes são santos, não por natureza mas em virtude da aliança da graça, na qual estão incluídos com seus pais. Por isso os pais que temem a Deus não devem ter dúvida da eleição e salvação de seus filhos, que Deus chama desta vida ainda na infância.
Artigo 18 ‑ Protesto não, e sim, adoração
Àqueles que reclamam contra esta graça de eleição imerecida e a severidade da justa reprovação nós replicamos com esta sentença do apóstolo: Quem és tu, ó homem para discutires com Deus?! (Rm 9.20). E com esta palavra do Salvador: Porventura não me é lícito fazer o que quero do que é meu? (Mt 20.15). Nós, entretanto, adorando reverentemente estes mistérios, exclamamos com o apóstolo: Ó profundidade do riqueza, tanto do sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juizos e quão inescrutáveis os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro lhe deu a ele para que lhe venha a ser restituído? Porque dele e por meio dele e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém (Rm 11.33­)


REJEIÇÃO DE ERROS
Tendo explicado a doutrina ortodoxa de eleição e reprovação, o Sínodo rejeita os seguintes erros:
Erro 1 ‑ A vontade de Deus para salvar aqueles que crerem e perseverarem na fé e na obediência da fé é o decreto inteiro e total da eleição para a salvação. Nada mais sobre este decreto foi revelado na Palavra de Deus.
Refutação ‑ Este erro engana aos simples e claramente contradiz a Escritura. Ela testifica não apenas que Deus salvará aqueles que crêem mas também que escolheu pessoas específicas desde a eternidade. Nesta vida ele dará a esses eleitos a fé em Cristo e a perseverança, que ele não dá a outros; como está escrito: Manifestei o teu nome aos homens que me deste do mundo (Jo 17.6).
...e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna (At 13.48), ... como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele ... (Ef 1.4).
Erro 2 ‑ Há vários tipos de eleição divina para a vida eterna. Uma é geral e indefinida, e outra é particular e definida. Esta última eleição ou é incompleta, revogável, não‑decisiva e condicional, ou é completa, irrevogável, decisiva e absoluta. Do mesmo modo, há uma eleição para a fé e outra para a salvação. Portanto a eleição pode ser para a fé justificante, sem ser decisiva para a salvação.
Refutação ‑ Isto é uma invenção da mente humana, sem nenhuma base na Escritura. Essa invenção corrompe a doutrina da eleição e quebra a corrente de ouro da nossa salvação. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou (Rm 8.30).
Erro 3 ‑ 0 bom propósito de Deus do qual a Escritura fala na doutrina da eleição não significa que ele escolheu certas pessoas e não outras, mas que ele, dentre todas as condições possíveis (inclusive as obras da lei), ou seja, dentre todas as possibilidades, escolheu como condição de salvação o ato de fé, que é, de si mesmo, sem mérito, e a obediência imperfeita da fé. Na sua graça ele a considera como obediência perfeita e digna da recompensa da vida eterna.
Refutação ‑ Este erro perigoso invalida o bom propósito de Deus e o mérito de Cristo, e desvia as pessoas, por questões inúteis, da verdade da justificação graciosa e da simplicidade da Escritura. Ele acusa de falsidade esta declaração do apóstolo: ... que nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos (2 Tm 1.9).
Erro 4 ‑ A eleição para a fé depende das seguintes condições prévias: o homem deve fazer uso adequado da luz da natureza e deve ser piedoso, humilde, submisso e qualificado para a vida eterna.
Refutação ‑ Assim parece que a eleição depende destas coisas. Isto tem o sabor do ensinamento de Pelágio* e está em conflito com o ensino do apóstolo em Efésios 2.3‑9: ... entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como também os demais. Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo ‑pela graça sois salvos e juntamente com ele nos ressuscitou e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus; para mostrar nos séculos vindouros a suprema riqueza da sua graça e bondade para conosco em Cristo Jesus, Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie.
Erro 5 - A eleição incompleta e não‑definida de certas pessoas para a salvação se baseou nisto:
Deus previu que elas começariam a crer, se converteriam, viveriam em santidade e piedade, e que até continuariam nisto por algum tempo. Eleição completa e definitiva de pessoas, porém,
ocorreu porque Deus previa que elas perseverariam em fé, conver­são, santidade e piedade até o fim. Isto é, constitui a dignidade graciosa e evangélica pela qual a pessoa que é escolhida é mais digna que outra que não é escolhida. Conseqüentemente a fé, a obediência de fé, a piedade e a perseverança não são frutos da imutável eleição para glória. São condições e causas previamente requeridas e previstas como cumpridas naqueles que serão eleitos completamente. Só com base nestas condições ocorre a eleição imutável para a glória.
Refutação ‑ Este erro está em conflito com toda a Escritura que repete constantemente para nossos ouvidos e corações, estas e semelhantes afirmações: a eleição não [se dá] por obras mas por aquele que chama... (Rm 9. 11), ... e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna; (At 13.48) ... nos escolheu nele antes da fundação do mundo para sermos santos e irrepreensíveis perante ele... (Ef 1.4); não fôstes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros... (Jo 15. 16); ... se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça (Rm 11. 6). Nisto consiste o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou, e enviou o seu filho... (Mo 4. 10).
Erro 6 ‑ Nem toda eleição para a salvação é imutável. Alguns dos eleitos podem perder‑se e de fato se perdem eternamente, não obstante qualquer decreto de Deus.
Refutação ‑ Este erro grosseiro faz Deus mutável, destrói o conforto dos crentes quanto à constância de sua eleição e contradiz a Escritura: os eleitos não podem ser enganados (Mt 24.24). E a vontade de quem me enviou é esta: que nenhum eu perca de todos os que me deu... (Jo 6.39); E aos que predestinou a esses também chamou; e aos que chamou a esses justificou; e aos que justificou a esses também glorificou (Rm 8.30).
Erro 7 ‑ Nesta vida não há fruto, consciência ou certeza da eleição imutável para a glória, exceto a certeza que depende de uma condição mutável e incerta.
Refutação ‑ Falar acerca de uma certeza incerta é não apenas absurdo mas também contrário à experiência dos santos. Sentindo sua eleição, eles se regozijam junto com o apóstolo e glorificam este beneficio de Deus (cf. Ef 1. 12). Conforme o mandamento de Cristo eles se regozijam junto com os discípulos por seus nomes estarem escritos nos céus (Lc 10.20). Eles colocam a consciência de sua eleição contra os dardos inflamados das tentações do dia­bo, quando perguntam: Quem intentará acusação contra os elei­tos de Deus? (Rm 8.33).
Erro 8 ‑ Deus não decidiu, simplesmente com base em sua justa vontade, deixar ninguém na queda de Adão e no estado co­mum de pecado e condenação. Nem decidiu preterir ninguém quan­do deu a graça, necessária para a fé e a conversão.
Refutação ‑ Pois isto é certo: Logo, tem ele misericórdia de quem quer, e também endurece a quem lhe apraz (Rm 9.18). E também isto: ... Porque a vós outros é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas àqueles não lhes é isso concedido (Mt 13. 11). Igualmente: ... Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e do terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi de teu agrado (Mt 11.25,26).
Erro 9 ‑ Deus envia o Evangelho a um povo mais que a um outro, não meramente e somente por causa do bom propósito de sua vontade, mas por ser este melhor e mais digno que o outro, ao qual o Evangelho não é comunicado.
Refutação - Moisés nega isto quando se dirige ao povo de Israel dizendo: Eis que os céus e os céus dos céus são do SE­NHOR teu Deus, a terra e tudo o que nela há. Tão somente o SENHOR se afeiçoou a teus pais para os amar: a vós outros, descendentes deles, escolheu de todos os povos, como hoje se vê(Dt 10.14,15). E Cristo diz :Ai de ti, Corazim ! Ai de ti, Betsaida ! Porque, se em Tiro e em Sidorn se tivessem operado os milagres que em vós se fizeram, há muito que elas se teriam arrependi­do, com pano de saco e cinza (Mt 11.21).










2o CAPITULO DA DOUTRINA:


A MORTE DE CRISTO E A REDENÇÃO
DO HOMEM POR MEIO DELA


Artigo 1 ‑ A Justiça de Deus exige punição
Deus é não só supremamente misericordioso mas também supremamente justo. E como ele se revelou em sua Palavra, sua justiça exige que nossos pecados, cometidos contra sua infinita majestade, sejam punidos nesta vida e na futura, em corpo e alma. Não podemos escapar dessas punições a menos que seja satisfeita a justiça de Deus.
Artigo 2 ‑ A satisfação cumprida por Cristo
Por nós mesmos, entretanto, não podemos cumprir tal satisfação nem podemos livrar a nós mesmos da ira de Deus. Por isso Deus, em sua infinita misericórdia, deu seu Filho único como nosso fiador. Por nós, ou em nosso lugar, ele foi feito pecado e maldição na cruz para que pudesse satisfazer a Deus por nós.
Artigo 3 ‑ 0 valor infinito da morte de Cristo
Esta morte do Filho de Deus é o único e perfeito sacrifício pelos pecados, de valor e dignidade infinitos, abundantemente suficiente para expiar os pecados do mundo inteiro.
Artigo 4 ‑ Sua morte tem valor infinito
Essa morte é de tão grande poder e valor porque quem se submeteu a ela era não apenas homem verdadeiro e perfeitamente santo, mas também o filho único de Deus. Ele é Deus eterno e infinito junto ao Pai e ao Espírito Santo. Assim devia ser nosso Salvador. Além disso ele sentiu, ao morrer, a ira e a maldição de Deus que nós merecemos pelos nossos pecados.
Artigo 5 ‑ A proclamação universal do Evangelho
A promessa do Evangelho é que todo aquele que crêr no Cristo crucificado não pereça, mas tenha a vida eterna. Esta promessa deve ser anunciada e proclamada sem discriminação a todos os povos e a todos os homens, aos quais Deus, em seu bom propósito, envia o Evangelho com a ordem de que se arrependam e creiam.
Artigo 6 ‑ Por que alguns não crêem
Muitos que têm sido chamados pelo Evangelho não se arrependem nem crêem em Cristo, mas perecem na incredulidade. Isto não acontece por causa de algum defeito ou insuficiência no sacrificio de Cristo na cruz, mas por culpa deles próprios.
Artigo 7 ‑ Por que outros crêem
Mas aqueles que verdadeiramente crêem e pela morte de Cristo são libertos e salvos dos seus pecados e da perdição, recebem tal beneficio apenas por causa da graça de Deus, que lhes é dada, em Cristo, desde a eternidade. Deus não deve a ninguém tal graça.
Artigo 8 ‑ A eficácia da morte de Cristo
Pois este foi o soberano conselho, a vontade graciosa e o propósito de Deus, o Pai, que a eficácia vivificante e salvifica da preciosissima morte de seu Filho fosse estendida a todos os eleitos. Daria somente a eles a justificação pela fé e por conseguinte os traria infalivelmente à salvação. Isto quer dizer que foi da vontade de Deus que Cristo, por meio do sangue na cruz (pelo qual ele confirmou a nova aliança), redimisse efetivamente, de todos os povos, tribos, línguas e nações, todos aqueles e somente aqueles que foram escolhidos desde a eternidade para serem salvos e lhe foram dados pelo Pai. Deus quis que Cristo lhes desse a fé, que ele mesmo lhes conquistou com sua morte, juntamente com outros dons salvificos do Espírito Santo. Deus quis também que Cristo os purificasse de todos os pecados por meio do seu sangue, tanto do pecado original como dos pecados atuais, que foram cometidos antes e depois de receberem a fé. E que Cristo os guardasse fielmente até o fim e finalmente os fizesse comparecer perante o próprio Pai em glória, sem mácula, nem ruga (Ef 5.27).
Artigo 9 ‑ 0 cumprimento do conselho de Deus
Este conselho, procedendo do amor eterno de Deus aos eleitos, tem sido poderosamente cumprido, desde o começo do mundo até hoje, ainda que as "portas do inferno" em vão tentem frustrálo. 0 conselho de Deus também continuará a ser cumprido. No devido tempo os eleitos serão unidos em um só rebanho, e sempre haverá uma Igreja de crentes fundada no sangue de Cristo. Esta Igreja ama firmemente seu Salvador (o qual como noivo deu na cruz sua própria vida por sua noiva), serve a ele com perseverança e o glorifica agora e para sempre.


REJEIÇÃO DE ERROS
Tendo explicado a doutrina ortodoxa, o Sínodo rejeita os seguintes erros:
Erro 1 ‑ Deus, o Pai, destinou seu Filho à morte na cruz sem um decreto definido de determinadas pessoas. Mesmo que a redenção por Cristo, conquistada de fato, nunca tivesse sido aplicada a nem uma só pessoa, o que ele alcançou pela sua morte podia ter sido necessário, proveitoso e valioso e podia permanecer perfeito, completo e intacto em todas as suas partes.
Refutação ‑ Esta doutrina é uma ofensa à sabedoria do Pai, ao mérito de Cristo e é contrária à Escritura. Pois o nosso Salvador afirma: ... dou a minha vida pelas ovelhas e eu as conheço... (Jo 10. 15, 27). E o profeta fala acerca do Salvador: ... quando der ele a sua alma como oferta pelo pecado, verá a sua posteridade e prolongará os seus dias; e a vontade do SENHOR prosperará nas suas mãos (Is 53. 10). Finalmente, este erro invalida o artigo de fé pelo qual confessamos a Igreja universal de Cristo.
Erro 2 ‑ Não era propósito da morte de Cristo que' ele confirmasse de fato a nova aliança da graça pelo seu sangue. Mas era somente propósito que conquistasse para o Pai o mero direito de estabelecer de novo uma aliança com o homem, seja de graça, seja de obras, conforme a vontade do Pai.
Refutação ‑ Isto contradiz a Escritura que ensina que Cristo se tornou o Fiador e Mediador de uma aliança superior, isto é, da nova aliança. Um testamento* só se concretiza em caso de morte (Hb 7.22 e 9.15,17).
Erro 3 ‑ Por sua satisfação ao Pai, Cristo não mereceu para ninguém a salvação segura nem a fé pela qual esta satisfação para salvação é efetivamente aplicada. Ele apenas obteve para o Pai a possibilidade ou a vontade perfeita, para tratar de novo com o homem e para prescrever novas condições conforme sua vontade. Depende entretanto da livre vontade do homem preencher essas condições. Portanto poderia acontecer que ninguém ou todos os homens preenchessem tais condições.
Refutação ‑ Aqueles que ensinam este erro desprezam a morte de Cristo e não reconhecem de maneira nenhuma o seu mais importante resultado ou benefício. Eles evocam do inferno o erro pelagiano*.
Erro 4 ‑ A nova aliança da graça, que Deus. o Pai, mediante a morte de Cristo, estabeleceu com o homem, não consiste em que nós estamos justificados diante de Deus e salvos pela fé se ela aceita o mérito de Cristo. Ela consiste no fato de que Deus revogou a exigência de perfeita obediência à lei e considera agora a própria fé e a obediência de fé, ainda que imperfeitas, como a perfeita obediência à lei. Ele acha, em sua graça, que elas sejam dignas da recompensa da vida eterna.
Refutação ‑ Os que ensinam isto contradizem a Escritura: ... sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé... (Rm 3.24,25). Eles introduzem, junto com o impio Socino*, uma nova e estranha justificação do homem diante de Deus, contrária ao consenso da Igreja inteira.
Erro 5 ‑ Todas as pessoas têm sido aceitas por Deus, de tal maneira que estão reconciliadas com ele e participam da aliança. Por isso ninguém está sujeito à condenação ou será condenado por causa do pecado original. Todos estão livres da culpa deste pecado.
Refutação ‑ Esta opinião contraria a Escritura que ensina que nós somos por natureza filhos da ira (Ef 2.3).
Erro 6 ‑ Deus, por sua parte, quer dar a todas as pessoas igualmente os beneficios conquistados pela morte de Cristo. Entretanto algumas obtêm o perdão dos pecados e a vida eterna, e outras não. Esta distinção depende de sua própria livre vontade que se junta à graça que é oferecida sem distinção. Mas não depende do dom especial da misericórdia que nelas opera tão poderosamente que elas se apropriem dessa graça, diferentemente das outras pessoas.
Refutação ‑ Os que assim ensinam abusam da distinção entre aquisição e apropriação da salvação para implantar esta opinião nas mentes de pessoas imprudentes e sem experiência. Enquanto eles simulam apresentar esta distinção da maneira correta, procuram induzir na mente do povo o perigoso veneno dos erros pelagianos*.
Erro 7 ‑ Cristo não podia nem precisava morrer de fato, por aqueles a quem Deus amou supremamente e elegeu para a vida eterna, visto que estes não precisavam da morte de Cristo.
Refutação ‑ Esta doutrina contradiz o apóstolo, que declara: 0 Filho de Deus me amou e a si mesmo se entregou por mim (GI2.20). Igualmente: Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu... por eles (Rm 8.33, 34). E o Salvador assegura: ... dou a minha vida pelas minhas ovelhas (Jo 10.15). E mais: 0 meu mandamento é este, que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos. (Jo 15.12, 13).




3o E 4o CAPíTULOS DA DOUTRINA:


A CORRUPÇÃO DO HOMEM,
A SUA CONVERSÃO A DEUS
E COMO ELA OCORRE




Artigo 1 ‑ 0 resultado do queda
No princípio o homem foi criado à imagem de Deus. Foi adornado em seu entendimento com o verdadeiro e salutar conhecimento de Deus e de todas as coisas espirituais. Sua vontade e seu coração eram retos, todos os seus afetos, puros; portanto, era o homem completamente santo. Mas, desviando‑se de Deus sob instigação do diabo e pela sua livre vontade, ele se privou desses dons excelentes. Em lugar disso trouxe sobre si cegueira, trevas terríveis, leviano e perverso juizo em seu entendimento; malícia, rebeldia e dureza em sua vontade e em seu coração; e ainda impureza em todos os seu afetos.
Artigo 2 ‑ Corrupção espalhada
Depois da queda, o homem corrompido gerou filhos corrompidos. Então a corrupção, de acordo com o justo julgamento de ' Deus, passou de Adão até todos os seus descendentes, com exce ção de Cristo somente. Não passou por imitação, como os antigos pelagianos afirmavam, mas por procriação da natureza corrompida.
Artigo 3 ‑ Incapacidade total do homem
Portanto, todos os homens são concebidos em pecado e nascem como filhos da ira, incapazes de qualquer ação que o salve, inclinados para o mal, mortos no pecado e escravos do pecado. Sem a graça do Espírito Santo regenerador não desejam nem tampouco podem retornar a Deus, corrigir sua natureza corrompida ou ao menos estar dispostos a essa correção.
Artigo 4 ‑ A Insuficiência da luz da natureza
É verdade que há no homem depois da queda um resto de luz natural. Assim ele retém ainda alguma noção sobre Deus, sobre as coisas naturais e a diferença entre honra e desonra e pratica alguma virtude e disciplina exterior. Mas o homem está tão longe de chegar ao conhecimento salvífico de Deus e à verdadeira conversão por meio desta luz natural que ele não a usa apropriadamente nem mesmo em assuntos cotidianos. Antes, qualquer que seja esta luz, o homem a polui totalmente, de maneiras diversas, e a detém pela injustiça. Assim, ele se faz indesculpável perante Deus.
Artigo 5 ‑ A insuficiência da lei
0 que foi dito à luz da natureza vale também com relação à lei dos Dez Mandamentos, dada por Deus através de Moisés, particularmente aos judeus. A lei revela como é grande o pecado e mais e mais convence o homem de sua culpa, mas não aponta o remédio nem dá a força para sair dessa miséria. A lei ficou sem força pela carne e deixa o transgressor sob a maldição. Por esta razão o homem não pode obter a graça salvadora através da lei.
Artigo 6 ‑ A necessidade do Evangelho
Aquilo que nem a luz natural nem a lei podem fazer, Deus o faz pelo poder do Espírito Santo e pela pregação ou ministério da reconciliação, que é o Evangelho do Messias. Agradou a Deus usar este Evangelho para salvar os crentes, tanto na antiga quanto na nova aliança.
Artigo 7 ‑ Por que o Evangelho é enviado a alguns e a outros não
No Antigo Testamento Deus revelou a poucas pessoas este mistério da sua vontade. No Novo Testamento, entretanto, ele retirou a distinção entre os povos e revelou o mistério a muito mais pessoas. Esta distribuição distinta do Evangelho não é motivada pela maior dignidade de um certo povo, nem pelo melhor uso da luz da natureza, mas pelo soberano bom propósito e amor imerecido de Deus. Portanto eles, que recebem tão grande graça, além e ao contrário de tudo que merecem, devem reconhecer isto com coração humilde e agradecido. Mas eles devem, com o após~ tolo, adorar a severidade e justiça dos julgamentos de Deus sobre aqueles que não recebem esta graça, mas não devem, de maneira nenhuma, investigá‑los curiosamente.
Artigo 8 ‑ 0 sério chamado pelo Evangelho
Tantos quantos; são chamados pelo Evangelho, o são seriamente. Porque Deus revela séria e sinceramente em sua Palavra o que lhe agrada, a saber, que aqueles que são chamados venham a ele. Ele também seriamente promete descanso para a alma e vida eterna a todos que a ele vierem e crerem.
Artigo 9 ‑ Por que alguns que são chamados não vêm
Muitos são chamados através do ministério do Evangelho, mas não vêm nem são convertidos. A culpa não é do Evangelho, nem de Cristo, que é oferecido pelo Evangelho, nem de Deus, que os chama através do Evangelho e inclusive lhes confere vários dons. A culpa é deles mesmos. Alguns não aceitam a Palavra da vida por descuido. Outros de fato a recebem, mas não em seus corações e, por isso, quando desaparece a alegria de sua fé temporária, viram as costas à Palavra. Ainda outros sufocam a semente da Palavra com os espinhos dos cuidados e prazeres deste mundo e não produzem nenhum fruto. Isto é o que o Salvador ensina na parábola do semeador (cf. Mt 13).
Artigo 10 ‑ Por que outros que são chamados vêm
Outros que são chamados pelo ministério do Evangelho vêm e são convertidos. Isto não pode ser atribuído ao homem, como se ele se distinguisse por sua livre vontade de outros que receberam a mesma e suficiente graça para fé e conversão, como a heresia orgulhosa de Pelágio afirma. Mas isto deve ser atribuído a Deus: como ele os escolheu em Cristo desde a eternidade, assim ele os chamou efetivamente no tempo. Ele lhes dá fé e arrependimento; ele os livra do poder das trevas e os transfere para o reino de seu Filho.
Tudo isso ele faz a fim de que proclamem as grandes virtudes daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz e se gloriem, não em si mesmos, mas no Senhor, como é o testemunho geral dos escritos apostólicos (CI 1. 13; 1 Pe 2.9; 1 Co 1.31).
Artigo 11 ‑ Como ocorre a conversão
Deus realiza seu bom propósito nos eleitos e opera neles a verdadeira conversão da seguinte maneira: ele faz com que ouçam o Evangelho mediante a pregação e poderosamente ilumina suas mentes pelo Espírito Santo de tal modo que possam entender corretamente e discernir as coisas do Espírito de Deus. Mas, pela operação eficaz do mesmo Espírito regenerador, Deus também pene~ tra até os recantos mais íntimos do homem. Ele abre o coração fechado e enternece o que está duro, circuncida o que está incircunciso e introduz novas qualidades na vontade. Esta vontade estava morta, mas ele a faz reviver; era má, mas ele a torna boa; estava indisposta, mas ele a torna disposta; era rebelde, mas ele a faz obediente, ele move e fortalece esta vontade de tal forma que, como uma boa árvore, seja capaz de produzir frutos de boas obras (I Cor 2.14).
Artigo 12 ‑ 0 caráter divino do regeneração
Esta conversão é aquela regeneração, renovação, nova criação, ressurreição dos mortos e vivificação, tão exaltada nas Escrituras, a qual Deus opera em nós, sem qualquer contribuição de nossa parte. Mas esta regeneração não é efetuada pela pregação apenas, nem por persuasão moral. Nem ocorre de tal maneira que, havendo Deus feito a sua parte, resta ao poder do homem ser regenerado ou não regenerado, convertido ou não convertido. Ao contrário, a regeneração é uma obra sobrenatural, poderosíssima, e ao mesmo tempo agradabilíssima, maravilhosa, misteriosa e indizível. De acordo com o testemunho da Escritura, inspirada pelo próprio autor dessa obra, regeneração não é inferior em poder à criação ou à ressurreição dos mortos. Conseqüentemente todos aqueles em cujos corações Deus opera desta maneira maravilhosa são, certamente, infalível e efetivamente regenerados e de fatopassam a crer. Portanto a vontade que é renovada não apenas é acionada e movida por Deus mas, sob a ação de Deus, torna‑se ela mesma atuante. Por isso também se diz corretamente que o homem crê e se arrepende mediante a graça que recebeu.
Artigo 13 ‑ A regeneração é incompreensível
Como Deus opera, os crentes, enquanto vivos, não podem entender completamente. Entretanto, estão tranqüilos, sabendo e sentindo que por esta graça de Deus eles crêem com o coração e amam seu Salvador.
Artigo 14 ‑ Fé, um dom de Deus
A fé nada mais é, portanto, que um dom de Deus. Isto significa que Deus a oferece à livre vontade do homem, mas que ela é, de fato, conferida ao homem e nele infundida. Não é um dom no sentido de que Deus apenas concede poder para crer e depois espera da livre vontade do homem o consentimento para crer ou o ato de crer. Ao contrário, é um dom no sentido de que Deus efetua no homem tanto a vontade de crer quanto o ato de crer. Ele opera tanto o querer como o realizar; sim, ele opera tudo em todos (Ef
2.8; Fp 2.13).
Artigo 15 ‑ Atitude cristã com respeito à graça imerecida de Deus
Esta graça Deus não deve a ninguém. Em troca de quê seria ele devedor ao homem? Quem teria primeiro dado a ele para que pudesse ser retribuído? 0 que poderia Deus dever a alguém que nada tem de si mesmo a não ser pecado e falsidade? Aquele, portanto, que recebe esta graça deve e rende eterna gratidão a Deus. Porém, quem não recebe esta graça nem valoriza estas coisas espirituais e tem prazer na sua própria situação ou numa falsa segurança, em vão se gaba de ter o que não tem. Além disso, quanto aos que manifestam sua fé e corrigem suas vidas, nós devemos julgar e falar da maneira mais favorável, de acordo com o exemplo dos apóstolos, pois não conhecemos o âmago dos corações. Quanto aos que ainda não foram chamados, nós devemos orar a Deus em seu favor, pois ele é que chama à existência as coisas que não existem. De maneira nenhuma, porém, podemos ter uma atitude orgulhosa para com eles, como se nós tivéssemos conquistado nossa posição distinta (Rm 11.35).
Artigo 16 ‑ A vontade do homem não é eliminada mas vivificada
0 homem não deixou, apesar da queda, de ser homem dotado de intelecto e vontade; e o pecado, que tem penetrado em toda a raça humana, não privou o homem de sua natureza humana, mas trouxe sobre ele depravação e morte espiritual. Assim também a graça divina da regeneração não age sobre os homens como se fossem máquinas ou robôs, e não destrói a vontade e as suas propriedades, ou a coage violentamente. Mas a graça a faz reviver espiritualmente, traz‑lhe a cura, corrige‑a e a dobra de forma agradável e ao mesmo tempo poderosa. Como resultado, onde dominava rebelião e resistência da carne, agora, pelo Espírito, começa a prevalecer uma pronta e sincera obediência. Esta é a verdadeira renovação espiritual e liberdade da vontade. E se o admirável autor de todo bem não agisse desse modo conosco, o homem não teria esperança de levantar‑se da sua queda por meio de sua livre vontade, pela qual ele, quando ainda estava em pé, se lançou na perdição.
Artigo 17 ‑ 0 uso dos meios
A todo‑poderosa operação de Deus pela qual ele produz e sustenta nossa vida natural não exclui mas requer o uso de meios, pelos quais ele quis exercer seu poder, de acordo com sua infinita sabedoria e bondade. Da mesma maneira a mencionada operação sobrenatural de Deus, pela qual ele nos regenera, de modo nenhum exclui ou anula o uso do Evangelho, que o mui sábio Deus ordenou para ser a semente da regeneração e o alimento da alma. Por esta razão os apóstolos e os mestres que os sucederam, piedosamente instruíram o povo acerca da graça de Deus, para sua glo.ria e para humilhação de toda soberba do homem. Ao mesmo tempo eles não descuidaram de manter o povo, pelas santas admoestações do Evangelho, sob a ministração da Palavra, dos sacramentos e da disciplina.
Por isso aqueles que hoje ensinam ou aprendem na igreja não devem ousar tentar a Deus, separando aquilo que ele em seu bom propósito quis preservar inteiramente unido. Pois a graça é conferida através de admoestações, e quanto mais prontamente desempenhamos nosso dever, tanto mais este beneficio de Deus, que opera em nós, se manifesta gloriosamente e sua obra prossegue da melhor maneira. A Deus somente seja dada toda glória eternamente, tanto pelos meios quanto pelo fruto e eficácia da salvação. Amém.


REJEIÇÃO DE ERROS
Tendo explicado a doutrina ortodoxo, o Sínodo rejeita os seguintes erros:
Erro 1 ‑ É impróprio dizer que o pecado original em si é suficiente para condenar toda a raça humana ou merecer castigo temporal e eterno.
Refutação ‑ Isto contradiz o apóstolo que declara: Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens porque todos pecaram. (Rm 5.12). E o verso 16 diz: ... o julgamento derivou de uma só ofensa, para a condenação. E em Romanos 6.23: 0 salário do pecado é a morte.
Erro 2 ‑ Os dons espirituais ou as boas qualidades e virtudes, tal como a bondade, a santidade e a justiça, não podiam estar na vontade do homem quando no princípio foi criado. Por isso também não podiam ter sido separados da sua própria vontade quando caiu.
Refutação ‑ Este erro é contrário à descrição da imagem de Deus que o apóstolo dá em Efésios 4.24, dizendo que ela consiste em justiça e santidade, que sem dúvida estão na vontade.
Erro 3 ‑ Na morte espiritual os dons espirituais não são separados da vontade do homem. Porque a vontade como tal nunca tem sido corrompida, mas apenas atrapalhada pelo obscurecimento do entendimento e pela desordem das afeições. Se estes obstáculos forem removidos, a vontade pode exercer seu livre poder inato*. A vontade é por si mesma capaz de desejar e escolher ou não toda espécie de bem que lhe for apresentada.
Refutação ‑ Esta é uma novidade e um engano, e tende a exaltar os poderes da livre vontade, contrário ao que o profeta Jerernias; declara no cap. 17.9: Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto... E o apóstolo Paulo escreve: Entre os quais (os filhos da desobediência) também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos... (Ef 2.3).
Erro 4 ‑ 0 homem não‑regenerado não é realmente ou totalmente morto em pecados, ou privado de toda capacidade para fazer o bem. Ele ainda pode ter fome e sede de justiça e vida, e pode oferecer sacrifício de espírito contrito e quebrantado que agrada a Deus.
Refutação ‑ Estas afirmações são contrárias ao testemunho claro da Escritura: Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados (Ef 2.1; cf. v.5). E, ... era continuamente mau todo o desígnio do seu coração (Gn 6.5; cf. 8.21). Além do mais, somente os regenerados e os bem‑aventurados têm fome e sede da libertação da miséria e da vida, e oferecem a Deus um sacrifício de espírito quebrantado (SI 51.19 e Mt 5.6).
Erro 5 ‑ 0 homem degenerado e carnal bem pode usar a graça comum (na que se constitui a luz natural), ou os dons que ainda lhe foram deixados após a queda. Assim ele, sozinho, pode gradualmente alcançar uma graça maior, isto é, a graça evangélica ou salvadora, e a própria salvação. Dessa forma Deus, por seu lado, mostra‑se pronto a revelar Cristo a todo homem, porque a todos ele administra suficiente e efetivamente os meios necessários para conhecer Cristo, para crer e se arrepender.
Refutação ‑ Tanto a experiência de todas as épocas como a Escritura testificam que isto não é verdade. Mostra a sua palavra a Jacó, as suas leis e os seus preceitos a Israel. Não fez assim a nenhuma outra nação; todos ignoram os seus preceitos. (SI 147.19,20). E ainda ... o qual nos gerações passadas permitiu que todos os povos andassem nos seus próprios caminhos (At 14.16). E Paulo e seus companheiros foram impedidos pelo Espírito Santo de pregar a Palavra no Ásia, defrontando Mísia, tentavam ir para Bitínia, mas o Espírito de Jesus não o permitiu (At 16.6,7).
Erro 6 ‑ Na verdadeira conversão do homem, Deus não pode infundir novas qualidades, novos poderes ou dons na vontade humana. Portanto a fé, que é o começo da conversão, e que nos dá o nome de crentes, não é uma qualidade ou um dom outorgado por Deus mas apenas um ato do homem. Somente com respeito ao poder para alcançar a fé, pode‑se dizer que é um dom.
Refutação ‑ Este ensinamento contradiz a Sagrada Escritura quando declara que Deus infunde em nossos corações novas qualidades de fé, obediência e experiência de seu amor: Na mente lhes imprimirei as minhas leis, também nos corações lhas inscreverei... Qr 31.33). E ... derramarei água sobre o sedento, e torrentes sobre a terra seco... (Is 44.3). E ainda ... o amor de Deus é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi outorgado (Rm 5.5). 0 ensinamento arminiano* também contraria a prática constante da Igreja, que ora com o profeta: Converte-me, e serei convertido (Jr 31.18).
Erro 7 ‑ Esta graça pela qual somos convertidos a Deus é apenas um apelo gentil. Ou (como alguns explicam) esta maneira de agir, que consiste em aconselhar, é a mais nobre maneira de converter o homem e está mais em harmonia com a natureza des
te. Não há razão por que tal graça persuasiva não seja suficiente para tomar espiritual o homem natural. Em verdade, Deus não produz o consentimento da vontade a não ser através deste tipo de apelo moral. 0 poder da operação divina supera a ação de Satapás, Deus prometendo bens eternos e Satanás apenas bens temporais.
Refutação ‑ Isto é Pelagianismo* por completo, e contrário a toda Escritura que conhece, além desse apelo moral, outra operação, muito mais poderosa e divina: a ação do Espírito Santo na conversão do homem: Dar‑vos‑ei coração novo, e porei dentro em vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne (Ez 36.26).
Erro 8 ‑ Na regeneração do homem Deus não usa os poderes de sua onipotência de maneira a dobrar a vontade do homem, à força e infalivelmente, para a fé e a conversão. Mesmo sendo realizadas todas as operações da graça que Deus possa usar para converter o homem e mesmo que Deus tenha a intenção e a vontade de regenerá‑lo, o homem ainda pode resistir a Deus e ao Santo Espírito. De fato freqüentemente resiste, chegando a impedir totalmente sua regeneração. Portanto ser ou não ser regenerado permanece no arbítrio do homem.
Refutação ‑ Isto é nada mais nada menos que anular todo o poder da graça de Deus em nossa conversão e sujeitar a operação do Deus Todo‑Poderoso à vontade do homem. É contrário ao que os apóstolos ensinam: cremos ... segundo a eficácia do força do seu poder.. (Ef 1. 19), e ... para que nosso Deus cumpra... com poder todo propósito de bondade e obra de fé... (2 Ts 1. 11), e também ... pelo seu divino poder nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade... (2 Pe 1.3).
Erro 9 ‑ Graça e livre vontade são as causas parciais que operam juntas no início da conversão. Pela ordem destas causas a graça não precede à operação da vontade do homem. Deus não ajuda efetivamente a vontade do homem para sua conversão, enquanto a própria vontade do homem não se move e decide se converter.
Refutação ‑ A Igreja Antiga há muito tempo já condenou esta doutrina dos Pelagianos*, de acordo com a palavra do apóstolo: Assim, pois, não depende de quem quer, ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia (Rm 9.16). Também: Pois quem é que te faz sobressair? E que tens tu que não tenhas recebido? (1 Cor 4.7). E ainda: ... porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade (Fp 2.13).




5o CAPÍTULO DA DOUTRINA:


A PERSEVERANÇA DOS SANTOS


Artigo 1 ‑ 0 regenerado não está livre do seu pecado
Aqueles que, de acordo com o seu propósito, Deus chama à comunhão do seu Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, e regenera pelo seu Santo Espírito, ele certamente os livra do domínio e da escravidão do pecado. Mas nesta vida, ele não os livra totalmente da carne e do corpo de pecado (Rm 7.24).
Artigo 2 ‑ Pecados diários de fraqueza
Portanto, pecados diários de fraqueza surgem e até as melhores obras dos santos são imperfeitas.
Estes são para eles constante motivo para humilhar‑se perante Deus e refugiar‑se no Cristo crucificado. Também são motivo para mais e mais mortificar a carne através do espírito de oração e através dos Santos exercícios de piedade, e ansiar pela meta da perfeição. Eles fazem isto até que possam reinar com o Cordeiro de Deus nos céus, finalmente livres deste corpo de morte.
Artigo 3 ‑ Deus preserva os seus
Por causa dos seus pecados remanescentes e também por causa das tentações do mundo e de Satanás, aqueles que têm sido convertidos não poderiam perseverar nesta graça se deixados ao cuidado de suas próprias forças. Mas Deus é fiei: misericordiosamente os confirma na graça, uma vez conferida eles, e poderosamente os preserva [na sua graça] até o fim.
Artigo 4 ‑ Os santos podem cair em pecados sérios
0 poder de Deus, pelo qual ele confirma e preserva os verdadeiros crentes na graça, é tão grande que isto não pode ser vencido pela carne. Mas os convertidos nem sempre são guiados e movidos por Deus, e assim eles poderiam, em certos casos, por sua própria culpa, desviar‑se da direção da graça e ser seduzidos pelos desejos da carne e segui‑los. Devem, portanto, vigiar constantemente e orar para que não caiam em tentação. Quando não vigiarem e orarem, eles podem ser levados pela carne, pelo mundo e por Satanás para sérios e horríveis pecados. Isto ocorre também muitas vezes pela justa permissão de Deus. A lamentável queda de Davi, Pedro e outros santos, descrita na Sagrada Escritura, demonstra isso.
Artigo 5 ‑ Os efeitos de tais pecados sérios
Por tais pecados grosseiros, entretanto, eles causam a ira de Deus, se tornam culpados de morte, entristecem o Espírito Santo, suspendem o exercício da fé, ferem profundamente suas consciências e algumas vezes perdem temporariamente a sensação da graça. Mas quando retornam ao reto caminho por meio de arrependimento sincero, logo a face paternal de Deus brilha novamente sobre eles.
Artigo 6 ‑ Deus não permite que seus eleitos se percam
Pois Deus, que é rico em misericórdia, de acordo com o imutável propósito da eleição, não retira completamente o seu Espírito dos seus, mesmo em sua deplorável queda. Nem tampouco permite que venham a cair tanto que recaiam da graça da adoção e do estado de justificados. Nem permite que cometam o pecado que leva à morte, isto é, o pecado contra o Espírito Santo e assim sejam totalmente abandonados por ele, lançando‑se na perdiçao eterna.
Artigo 7 ‑ Deus quer renovar os eleitos para arrependimento
Pois, em primeiro lugar, em tal queda, Deus preserva neles sua Imperecível semente da regeneração, a fim de que esta não pereça nem seja lançada fora. Além disso, através da sua Palavra e de seu Espírito, ele certamente os renova efetivamente para arrependimento. Como resultado eles se afligem de coração, entristecendo‑se com Deus pelos pecados que têm cometido; procuram e obtêm pela fé, com coração contríto, o perdão pelo sangue do Mediador; e experimentam novamente a graça de Deus, que se reconcilia com eles que, através da fé adoram sua misericórdia. E aí em diante eles se empenham mais diligentemente pela sua salvação com temor e tremor.
Artigo 8 ‑ A graça do trino Deus preserva
Assim, não é por seus próprios méritos ou força, mas pela imerecida misericórdia de Deus que eles não caem totalmente da fé e da graça e nem permanecem caldos ou se perdem definitivamente. Quanto a eles, isto facilmente poderia acontecer e aconteceria sem dúvida. Quanto a Deus, porém, isto não pode acontecer de modo nenhum. Pois seu decreto não pode ser mudado, sua promessa não pode ser quebrada, seu chamado em acordo com seu propósito não pode ser revogado. Nem o mérito, a intercessão ou a preservação de Cristo podem ser invalidados, e a selagem do Espírito tampouco pode ser frustada ou destrulda.
Artigo 9 ‑ A certeza desta preservação
Os crentes podem estar certos e estão certos dessa preservação dos eleitos para a salvação e da perseverança dos verdadeiros crentes na fé. Esta certeza ocorre de acordo com a medida de sua fé, pela qual eles crêem que são e permanecerão verdadeiros e vivos membros da Igreja, e que têm o perdão dos pecados e a vida eterna.
Artigo 10 ‑ 0 fundamento desta certeza
Esta certeza não vem de uma revelação especial, sem a Palavra ou fora dela, mas vem da fé nas promessas de Deus, que ele revelou abundantemente em sua Palavra para nossa consolação; vem também do testemunho do Espírito Santo, testificando com o nosso espírito que somos filhos e herdeiros de Deus; e, finalmente, vem do zelo sério e santo por uma boa consciência e por boas obras. E se os eleitos não tivessem neste mundo a sólida consolação de obter a vitória e esta garantia infalível da glória eterna, seriam os mais miseráveis de todos os homens (Rm 8.16,17).
Artigo 11 ‑ Esta certeza nem sempre é sentida
No entanto, a Escritura testifica que os crentes nesta vida têm de lutar contra várias dúvidas da carne e, sujeitos a graves tentações, nem sempre sentem plenamente esta confiança da fé e certeza da perseverança. Mas Deus, que é Pai de toda a consolação, não os deixa ser tentados além de suas forças, mas com a tentação proverá também o livramento e pelo Espírito Santo novamente revive neles a certeza da perseverança (lCo 10.13).
Artigo 12 ‑ Esta certeza não leva à acomodação
Entretanto, esta certeza de perseverança não faz de maneira nenhuma com que os verdadeiros crentes se orgulhem e se acomodem. Ao contrário, ela é a verdadeira raiz da humildade, reverência filial, verdadeira piedade, paciência em toda luta, orações fervorosas, firmeza em carregar a cruz e confessar a verdade e alegria sólida em Deus. Além do mais, a reflexão deste benefício é para eles um estímulo para praticar séria e constantemente a gratidão e as boas obras, como é evidente nos testemunhos da Escritura e nos exemplos dos santos.
Artigo 13 ‑ Esta certeza produz diligência
Quando pessoas são levantadas de uma queda (no pecado) começam a reviver a confiança na perseverança. Isto não produz descuido ou negligência na piedade delas. Em vez disto produz maior cuidado e diligência para guardar os caminhos do Senhor, já preparados, para que, andando neles, possam preservar a certeza da perseverança. Quando fazem isto, o Deus reconciliado não retira de novo sua face delas por causa do abuso da sua bondade paternal (a contemplação dela é para os piedosos mais doce que a vida e sua retirada mais amarga que a morte), e elas não cairão em tormentos mais graves da alma (Ef 2. 10).
Artigo 14 ‑ Incluído o uso de meios
Tal como agradou a Deus iniciar sua obra da graça em nós pela pregação do evangelho, assim ele a mantém, continua e aperfeiçoa pelo ouvir e ler do Evangelho, pelo meditar nele, pelas suas exortações, ameaças e promessas, e pelo uso dos sacramentos.
Artigo 15 ‑ Este doutrina é odiado por Satanás mos amado pela Igreja
Deus revelou abundantemente em sua Palavra esta doutrina da perseverança dos verdadeiros crentes e santos e da certeza dela para a glória do seu Nome e para a consolação dos piedosos. Ele a imprime nos corações dos crentes, mas a carne não pode entendêIa. Satanás a odeia, o mundo zomba dela, os ignorantes e hipócritas dela abusam, e os heréticos a ela se opõem. A Noiva de Cristo, entretanto, sempre tem‑na amado ternamente e defendido constantemente como um tesouro de inestimável valor. Deus, contra quem nenhum plano pode se valer e nenhuma força pode prevalecer, cuidará para que a Igreja possa continuar fazendo isso. Ao único Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, sejam a honra e a glória para sempre. Amém!


REJEIÇÃO DE ERROS
Tendo explicado a doutrina ortodoxa, o Sínodo rejeita os seguintes erros:
Erro 1 ‑ A perseverança dos verdadeiros crentes não é resultado da eleição ou um dom de Deus obtido pela morte de Cristo. É uma condição da nova aliança, que o homem deve cumprir pela sua livre vontade antes da assim chamada eleição decisiva e justifícação.
Refutação ‑ A Escritura Sagrada testifica que a perseverança provém da eleição e é dada aos eleitos pelo poder da morte, ressurreição e intercessão de Cristo: a eleição o alcançou; e os mais foram endurecidos... (Rm 11.7). Também: Aquele que não poupou a seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura não nos dará graciosamente com ele todas as coisas? Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? É Cristo quem morreu, ou antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós. Quem nos separará do amor de Cristo? (Rm 8.32, 35).
Erro 2 ‑ Deus de fato provê os crentes de suficientes forças para perseverar e está pronto para preservar tais forças neles, se estes cumprirem seu dever; mas ainda que todas estas coisas tenham sido estabelecidas como necessárias para perseverar na fé e que Deus as use para preservar a fé, ainda assim dependerá da vontade humana perseverar ou não.
Refutação ‑ Esta idéia é abertamente pelagiana*. Enquanto deseja libertar o homem, o faz usurpador da honra de Deus. Combate o consenso geral da doutrina evangélica que retira do homem todo motivo de orgulho e atribui todo louvor por este benefício somente à graça de Deus.
É também contrário ao apóstolo que declara: ...o qual também vos confirmará até.ao fim, para serdes irrepreensíveis no dia de nosso Senhor Jesus Cristo (1 Cor 1.8).
Erro 3 ‑ Crentes verdadeiramente regenerados não só podem perder completa e definitivamente a fé justificadora, a graça e a salvação, mas de fato as perdem freqüentemente e assim se perdem eternamente.
Refutação ‑ Esta opinião invalida a graça, a justificação, a regeneração e contínua preservação por Cristo. Ela écontrária às palavras expressas do apóstolo Paulo: Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco, pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores. Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira (Rm 5.8,9).
É contrária ao apóstolo João: Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prático do pecado; pois o que permanece nele é a divina semente; ora, esse não pode viver pecando porque é nascido de Deus (1 Jo 3.9). Também é contrária às palavras de Jesus Cristo: Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, eternamente, e ninguém as arrebatará da minha mão. Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar (Jo 10.28, 29).
Erro 4 ‑ Verdadeiros crentes regenerados podem cometer o pecado que leva à morte, ou o pecado contra o Espírito Santo.
Refutação ‑ Após o apóstolo João ter falado no 59 capítulo de
sua primeira carta, versos 16 e 17, sobre aqueles que pecam para a morte e de ter proibido de orar por eles, logo acrescenta no verso 18:
Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive em pecado, antes, aquele que nasceu de Deus o guarda, e o maligno não o toca.
Erro 5 ‑ Sem uma revelação especial não podemos ter nesta vida nenhuma certeza da perseverança futura.
Refutação ‑ Por tal doutrina o seguro consolo dos crentes verdadeiros nesta vida é tirado, e as dúvidas dos seguidores do papa são novamente introduzidas na igreja. As Escrituras Sagradas, entretanto, sempre deduzem esta segurança, não a partir de uma revelação especial e extraordinária, mas a partir das marcas dos Mos de Deus e das promessas mui firmes dele. Especialmente o apóstolo Paulo ensina isto:‑‑‑nem qualquer outra criatura poderá separar‑nos do amor de Deus que há em Cristo Jesus, nosso Senhor (Rm 8:39). E João escreve: E aquele que guarda os seus mandamentos permanece em Deus, e Deus nele. E nisto conhecemos que ele permanece em nós, pelo Espírito que nos deu (1 Jo 3.24).
Erro 6 ‑ Por sua própria natureza a doutrina da certeza da perseverança e da salvação causa falsa segurança e prejudica a piedade, os bons costumes, orações e outros santos exercícios. Ao contrário, é louvável duvidar desta certeza.
Refutação ‑ Esta falsa doutrina ignora o efetivo poder da graça de Deus e a atuação do Santo Espírito, que habita em nós. Contradiz o apóstolo João que, em palavras explícitas, ensina o contrário: Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque havemos de vê‑lo como ele é. E a si mesmo se purifica todo o que nele tem esta esperança, assim como ele é puro (1 Jo 12,3). Ainda mais, ela é refutada pelos exemplos dos santos tanto no Antigo como no Novo Testamento que, não obstante estarem certos de sua perseverança e salvação, continuaram em oração e outros exercícios de piedade.
Erro 7 ‑ A fé daqueles que crêem apenas por um tempo não é diferente da fé justificadora e salvadora, a não ser com respeito à sua duração.
Refutação ‑ Em Mateus 13.20‑23 e Lucas 8.13‑15 Cristo mesmo indica claramente, além da duração, uma tríplice diferença entre os que crêem só por um tempo e os verdadeiros crentes. Ele declara que o primeiro recebe a semente em terra rochosa, mas o último em bom solo, ou seja, em bom coração; que o primeiro é sem raiz, mas o último tem firme raiz; que o primeiro não tem fruto, mas o último produz fruto em várias medidas, constante e perseverantemente.
Erro 8 ‑ Não é absurdo o fato de alguém, tendo perdido sua primeira regeneração, nascer de novo e mesmo freqüentemente nascer de novo.
Refutação ‑ Esta doutrina nega que a semente de Deus, pela qual somos nascidos de novo, seja incorruptível. Isto écontrário ao testemunho do apóstolo Pedro: ... pois fostes regenerados, não de semente corruptível, mas de incorruptível... (lPe 1.23).
Erro 9 ‑ Cristo em lugar algum orou para que os crentes perseverassem infalivelmente na fé.
Refutação ‑ Isto contradiz ao próprio Cristo, que disse: Eu, porém, roguei por ti (Pedro) para que a tua fé não desfaleça (Lc 22.32). Também contradiz o apóstolo João que declara que Cristo não orava somente pelos apóstolos, mas também por todos aque~ les que viessem a crer por meio da palavra deles: Pai Santo, guar‑ da‑os em teu nome, que me deste... Não peço que os tires do mundo; e sim, que os guardes do mal (Jo 17.11,15).


CONCLUSÃO
Esta é a declaração clara, simples e sincera da doutrina ortodoxa com respeito aos Cinco Artigos da Fé disputados na Holanda; e esta é a rejeição dos erros pelos quais as Igrejas têm sido perturbadas, por algum tempo. 0 Sínodo de Dort julga estarem as presentes declarações e rejeições de acordo com a Palavra de Deus e com a confissão das Igrejas Reformadas. Assim torna‑se evidente que alguns agiram muito impropria e contrariamente a toda ver~ dade, eqüidade e amor, desejando persuadir o povo do seguinte:
‑ A doutrina das Igrejas Reformadas no tocante à predestinação e aos demais pontos relacionados a ela, por seu caráter e tendência, desvia os corações dos homens da verdadeira religião.
‑ Ela é um ópio diabólico para a carne, bem como fortaleza para Satanás, onde este permanece à espera de todos, fere multidões, atingindo mortalmente a muitos com os dardos tanto do desespero quanto da falsa segurança.
‑ Faz de Deus o autor injusto do pecado, um tirano e hipócrita; é nada mais do que renovados Estoicismo*, Maniqueísmo*, Libertinismo* e Islamismo*.
‑ Conduz a um pecaminoso descuido porque faz as pessoas crerem que nada pode impedir a salvação dos eleitos, não importando como vivam e que, portanto, podem tranqüilamente cometer os crimes mais horríveis. Por outro lado, se os reprovados tivessem produzido todas as obras dos santos, isto não poderia nem ao menos contribuir para a salvação deles.
‑ A mesma doutrina ensina que Deus tem predestinado e criado a maior parte da humanidade para a condenação eterna só por um ato arbitrário de sua vontade sem levar em conta qualquer pecado.
‑ Da mesma maneira pela qual a eleição é a fonte e a causa da fé e das boas obras, a reprovação é a causa da incredulidade e da impiedade.
Muitos filhos inocentes de pais crentes são arrancados do seio de suas mães e tiranicamente lançados no inferno, de tal modo que nem o sangue de Cristo, nem o batismo, nem as orações da Igreja no ato do batismo lhes podem ser proveitosos.
Há muitas outras coisas semelhantes que as Igrejas Reformadas não apenas não confessam mas também repelem de todo o coração.
Portanto, este Sínodo de Dort conclama em nome do Senhor a todos os que piedosamente invocam o nosso Salvador Jesus Cristo, que não julguem a fé das Igrejas Reformadas a partir das calúnias juntadas daqui e dali, nem tampouco a partir de declarações pessoais de alguns professores, modernos ou antigos, que muitas vezes são citadas em má fé, distorcídas e explicadas de forma oposta ao seu sentido real.
Pelo contrário, deve‑se julgar a fé das Igrejas Reformadas pelas Confissões públicas destas Igrejas e pela presente declaração da doutrina ortodoxa, confirmada pelo consenso unânime de cada um dos membros de todo o Sínodo.
Além do mais, o Sínodo adverte os caluniosos para que considerem o severo julgamento de Deus que os aguarda, por darem falso testemunho contra tantas igrejas e contra as Confissões delas, por conturbar a consciência dos fracos e por tentar colocar sob suspeita, aos olhos de muitos, a comunidade dos verdadeiros crentes.
Finalmente, este Sínodo exorta todos os conversos ao evangelho de Cristo a comportar‑se em santo temor e piedade diante de Deus quando lidarem com esta doutrina em escolas e igrejas.
Ao ensiná‑la, tanto pela palavra falada quanto escrita, devem procurar a glória de Deus, a santidade de vida e a consolação das almas aflitas. Seus pensamentos e palavras sobre a doutrina devem estar em concordância com a escritura, de acordo com a analogia. da fé. E devem abster‑se de usar qualquer frase que exceda os limites prescritos pelo genuíno sentido das Escrituras Sagradas para não dar aos frívolos sofistas* boas oportunidades para atacar ou caluniar a doutrina das Igrejas Reformadas.
Que o Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, o qual está sentado à direita do Pai e envia seus dons aos homens, nos santifique na verdade. Que ele traga à verdade os que se desviaram dela., cale a boca dos caluniosos da sã doutrina e equipe os ministros fiéis da sua Palavra com o Espírito de sabedoria e discrição, para que tudo que falem possa ser para a glória de Deus e a edificação dos ouvintes. Amém.


GLOSSÁRIO
Este glossário pretende explicar alguns termos difíceis e nomes; pouco conhecidos que se encontram no texto dos Cânones de Dort.


Arminianos,
Leia na introdução aos Cinco Artigos, à página 8.
0 termo designa um grupo de filósofos gregos e romanos antigos que cultivavam o ideal do ho­mem impassível diante da dor e da adversidade. A conclusão dos Cinco Artigos de Fé se refere a este termo porque os adversários da doutrina re­formada diziam, na época, que ela faz de Deus um ser impassível e sem emoções, o que seria, de fato, um renovado Estoicismo. Mas os Cinco Ar­tigos mostram justamente o grande amor de Deus em sua eleição soberana e graciosa.
Inato
Indica algo que nasce com a pessoa ou que per tence à natureza do homem. Por exemplo: É ina to ao homem fazer perguntas. A doutrina arminiana ensina que o homem ainda tem um livre poder inato de escolher o bem (Cap. 3/4, Re jeição de erros, Erro 3). Os Cinco Artigos de Fé sobre o arminianismo ensinam que o homem, estando morto em seus pecados, não tem mais tal poder inato (Cf. Ef 2. 1).
A Conclusão dos Cinco Artigos de Fé menciona esta designação da religião fundada por Maomé, na Arábia. Esta religião se chama também "muçulmana". Uma característica desta religião é seu fatalismo: o homem é nada mais que um pedaço de pau nas mãos de Alá (o "deus" do islamismo).
A vontade de Alá mata a vontade do homem. Na época do Sínodo de Dort, os adversários da doutrina reformada diziam que ela faz de Deus um tirano injusto, igual ao "deus" do islamismo. Mas os Cinco Artigos mostram que a doutrina reformada não tem nada a ver com fatalismo muçulmano porque o espírito de Deus renova a vontade do Homem. A vontade do homem pecador e de fato morta, mas pela graça de Deus o crente tem uma vontade viva, disposta a cumprir a vontade de Deus.
Libertinismo
Este termo designa um tipo de pensamento e comportamento que não permite regras morais fixas. A Conclusão dos Cinco Artigos de Fé se refere a este termo porque o Sínodo de Dort era acusado de fazer de Deus um hipócrita sem moralidade, elegendo e não elegendo sem norma alguma. Mas a doutrina reformada confessa que Deus é totalmente justo em todos os seus decretos.
Maniqueísmo
A Conclusão dos Cinco Artigos usa esta designação da doutrina do persa Mani (séc.III) sobre a qual se criou uma seita religiosa. Ela ensina que o universo foi cria‑do e é dominado por dois princípios opostos: o bem e o mal. Os adversários da doutrina reformada achavam que ela mantinha crença em duas forças, a do bem (eleição) e a do mal (reprovação). Mas não há duas forças iguais: Deus, embora não seja o autor do pecado, domina o pecado e o mal.
Pelágio,
Pelagianismo,
Pelagiano
Encontramos estes termos várias vezes no texto dos Cinco Artigos.
0 pelagianismo tem sua origem nos fins do século IV com o ensinamento de Pelágio, um britânico que foi professor em Roma e em Jerusalém. Pelágio era o grande adversário de Agostinho e enfatizava que o homem é capaz de dar os primeiros passos em direção à salvação mediante os seus próprios esforços, fora e antes da graça especial de Deus. Pelágio só podia ensinar isto negando a depravação total do homem e acreditando no livre arbítrio do homem. Consideramos pelagiana toda doutrina que segue esta linha de pensamento. No fundo, a doutrina arminiana é também pelagiana.
Reprovação
Trata‑se do decreto justo de Deus pelo qual ele decidiu não salvar um deterninado número de pessoas, deixando‑as na miséria de seus pecados em que elas se lançaram por culpa própria. Leia também a explicação no artigo 15 do capítulo 1.
Socino
Fausto Socino (1539‑1604) nasceu na Itália mas trabalhou a segunda parte da sua vida na Polônia. Ele era um teólogo com muitas idéias heréticas. Ele pertencia aos unitaristas que negam a doutri­na da trindade. Os Cinco Artigos de Fé ( Cap . 2, Refutação do Erro 4) se referem a ele por causa da sua falsa doutrina de que o homem é justifica­ do perante Deus por arrependimento e boas obras.
Sofistas
Literalmente, "sábios"; mas Os Cinco Artigos de Fé, em sua Conclusão, se referem a pessoas tão hábeis em argumentar que, mesmo com falsos argumentos, são capazes de convencer e enga­nar as pessoas.
Testamento
Um testamento é um documento pessoal que contém declarações de última vontade, por exemplo, sobre o património. Fundamental para um testamento é que ele só entre em vigor com a morte da pessoa que o fez. Assim fala também Hebreus 9.15‑17 se referindo à morte de Cristo. Com a morte de Cristo entrou em vigor o testamento dele, ou seja, a nova aliança. Este vigor ou efeito real da morte de Cristo era negado pelos arminianos. Veja Cap. 2, Refutação do Erro 2 dos Cinco Artigos da Fé.


[a] Observação: termos e nomes marcados por * são explicados no Glossário, no final do livro.

FONTE:
http://protestantecalvinista.blogspot.com.br/2012/01/sinodo-de-dort-documento-contra-heresia.html

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

O Cânon Bíblico - Paulo R. B. Anglada

Sob o nome de Escrituras Sagradas, ou Palavra de Deus escrita, incluem-se agora todos os livros do Velho e do Novo Testamentos, todos dados por inspiração de Deus para serem a regra de fé e prática, que são os seguintes:

O Antigo Testamento: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio, Josué, Juízes, Rute, 1 Samuel, 2 Samuel, 1 Reis, 2 Reis, 1 Crônicas, 2 Crônicas, Esdras, Neemias, Ester, Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cantares, Isaías, Jeremias, Lamentações, Ezequiel, Daniel, Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias.

O Novo Testamento: Mateus, Marcos, Lucas, João, Atos, Romanos, 1 Coríntios, 2 Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, 1 Tessalonicenses, 2 Tessalonicenses, 1 Timóteo, 2 Timóteo, Tito, Filemon, Hebreus, Tiago, 1 Pedro, 2 Pedro, 1 João, 2 João, 3 João, Judas, Apocalipse.

Os livros geralmente chamados Apócrifos, não sendo de inspiração divina, não fazem parte do Cânon da Escritura; não são, portanto, de autoridade na Igreja de Deus, nem de modo algum podem ser aprovados ou empregados senão como escritos humanos (Confissão de Fé de Westminster, 1:2-3).



O ensino destes parágrafos da Confissão de Fé de Westminster diz respeito especialmente ao cânon das Escrituras. Nele não são indicados os critérios empregados. São apenas relacionados os sessenta e seis livros aceitos como canônicos, ou seja, como inspirados por Deus, que compõem a Bíblia Protestante. Quanto aos livros apócrifos, que foram incluídos na Bíblia Católica, são explici­ta­mente considerados não inspirados e, portanto, não autorita­tivos; não devendo ser empregados senão como escritos humanos.

A palavra cânon é mera transliteração do termo grego kanwvn, que significa vara reta, régua, regra. Aplicado às Escrituras, o termo designa os livros que se conformam à regra da inspiração e autoridade divinas. Atanásio (séc. IV) parece ter sido o primeiro a usar a palavra neste sentido.[1] São chamados de canônicos, portanto, os livros que foram inspirados por Deus, os quais compõem as Escrituras Sagradas — o cânon bíblico.

Qual o cânon das Escrituras? Quais são os livros canônicos, ou seja, inspirados? Como se dividem? Há alguma regra pela qual se pôde averiguar a canonicidade de um livro? Como explicar a diferença entre os cânones hebraico, católico e protestante? São estas as perguntas que precisam ser respondidas com relação ao presente assunto.
O CÂNON PROTESTANTE DO ANTIGO TESTAMENTO
Origem

O cânon protestante do Antigo Testamento (composto pelos trinta e nove livros relacionados acima) é exatamente igual ao cânon hebraico massorético. O cânon massorético é a Bíblia hebraica em sua forma definitiva, vocalizada e acentuada pelos massoretas. A ordem dos livros, entretanto, segue a da Vulgata e da Septuaginta.
Os Massoretas

Os massoretas eram judeus estudiosos que se dedicavam à tarefa de guardar a tradição oral (massora) da vocalização e acentuação correta do texto. À medida que um sistema de vocalização foi sendo desenvolvido, entre 500 e 950 AD, o texto consonantal que receberam dossoferim[2] foi sendo por eles cuidadosamente vocalizado e acentuado. Além dos pontos vocálicos e dos acentos, os massoretas acrescentavam também ao texto as massoras marginais, maiores e finais, calculadas pelos soferim. Essas massoras (tradições) eram esta­tísticas colocadas ao lado das linhas, ao fim das páginas e ao final dos livros, indicando quantas vezes uma determinada palavra aparecia no livro, o número de versículos, palavras e letras. Elas indicavam até a palavra e letra central do livro.[3]
O Cânon Massorético

Embora o conteúdo do cânon protestante seja o mesmo do cânon hebraico, a divisão e a ordem dos livros são diferentes. Eis a divisão e ordem do cânon hebraico:

O Pentateuco (Torá): Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio.

Os Profetas (Neviim):

Anteriores: Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis.

Posteriores: Isaías, Jeremias, Ezequiel e Profetas Menores.

Os Escritos (Kêtuvim):

Poesia e Sabedoria: Salmos, Provérbios e Jó.

Rolos ou Megilloth (lidos no ano litúrgico): Cantares (na páscoa), Rute (no pentecostes), Lamentações (no quinto mês), Eclesiastes (na festa dos tabernáculos) e Ester (na festa de purim).

Históricos: Daniel, Esdras, Neemias e 1 e 2 Crônicas.
O Cânon Consonantal

A divisão e ordem dos livros no cânon hebraico consonantal (anterior) era a mesma. O número de livros, entretanto, era diferente. O conteúdo era o mesmo, mas agrupado de modo a formar apenas vinte e quatro livros. Os livros de 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis e 1 e 2 Crônicas eram unidos, formando apenas um livro cada (o que implica em três livros a menos em relação ao nosso cânon). Os doze profetas menores eram agrupados em um só livro (menos onze livros). Esdras e Neemias formavam um só livro, o Livro de Esdras (menos um livro).
Testemunhas Antigas do Cânon Protestante Hebraico

A referência mais antiga ao cânon hebraico é do historiador judeu Josefo (37-95 AC). Em Contra Apionem ele escreve: “Não temos dezenas de milhares de livros, em desarmonia e conflitos, mas só vinte e dois, contendo o registro de toda a história, os quais, conforme se crê, com justiça, são divinos.”[4] Depois de referir-se aos cinco livros de Moisés, aos treze livros dos profetas, e aos demais escritos (os quais “incluem hinos a Deus e conselhos pelos quais os homens podem pautar suas vidas”), ele continua afirmando:

Desde Artaxerxes (sucessor de Xerxes) até nossos dias, tudo tem sido registrado, mas não tem sido considerado digno de tanto crédito quanto aquilo que precedeu a esta época, visto que a sucessão dos profetas cessou. Mas a fé que depositamos em nossos próprios escritos é percebida através de nossa conduta; pois, apesar de ter-se passado tanto tempo, ninguém jamais ousou acrescentar coisa alguma a eles, nem tirar deles coisa alguma, nem alterar neles qualquer coisa que seja.[5]

Josefo é suficientemente claro. Como historiador judeu, ele é fonte fidedigna. Eram apenas vinte e dois os livros do cânon hebraico agrupados nas três divisões do cânon massorético. E desde a época de Malaquias (Artaxerxes, 464-424) até a sua época nada se lhe havia sido acrescentado. Outros livros foram escritos, mas não eram considerados canônicos, com a autoridade divina dos vinte e dois livros mencionados.

Além de Josefo, Mileto, Bispo de Sardes, diz ter viajado para o Oriente, em 170, com o propósito de investigar a ordem e o número dos livros do Antigo Testamento; Orígenes, o erudito do Egito, que morreu em 254; Tertuliano (160-250), pai latino contemporâneo de Orígenes; e Jerônimo (340-420), entre outros, confirmam o cânon hebraico de vinte e dois ou vinte e quatro livros (dependendo do agrupamento ou não de Rute e Lamentações).

É interessante observar que o próprio Jerônimo, tradutor da Vulgata latina, que daria origem ao cânon católico, embora considerasse os livros apócrifos úteis para a edificação, não os tinha como canônicos. Embora tendo traduzido outros livros não canônicos, ele escreveu que “deveriam ser colocados entre os apócrifos,” afirmando que “não fazem parte do cânon.” Referindo-se ao livro de Sabedoria de Salomão e ao livro de Eclesiástico, ele diz: “Da mesma maneira pela qual a igreja lê Judite e Tobias e Macabeus (no culto público), mas não os recebe entre as Escrituras canônicas, assim também sejam estes dois livros úteis para a edificação do povo, mas não para receber as doutrinas da igreja.”[6]

Vale salientar ainda que a versão siríaca Peshita, que bem pode ter sido feita no século II ou III,[7] ou até mesmo no século I,[8] nos manuscritos mais antigos, não contém nenhum dos apócrifos.
O Testemunho de Jesus e dos Apóstolos

Embora as evidências já mencionadas sejam importantes, a principal testemunha do cânon protestante do Antigo Testamento é o Novo Testamento. Jesus e os apóstolos não questionaram o cânon hebraico da época (época de Josefo, convém lembrar). Eles citaram-no cerca de seiscentas vezes, de modo autoritativo, incluindo praticamente todos os livros do cânon hebraico. Entretanto, não citam nenhuma vez os livros apócrifos.[9] Pode-se concluir, portanto, que Jesus e os apóstolos deram o imprimatur deles ao cânon hebraico e, conseqüen­temente, ao cânon protestante.
O CÂNON CATÓLICO DO ANTIGO TESTAMENTO
Origem

O cânon católico, composto pelos trinta e nove livros encontrados no cânon protestante, acrescido das adições a Daniel e Ester, e dos livros de Baruque, Carta de Jeremias, 1-2 Macabeus, Judite, Tobias, Eclesiástico e Sabedoria — 3 e 4 Esdras e a Oração de Manassés são acrescentadas depois do NT — origina-se da Vulgata latina, que por sua vez provém da Septuaginta.
A Septuaginta

A Septuaginta é uma tradução dos livros judaicos para o grego feita, possivelmente, durante o reinado de Ptolomeu Filadelfo (285-245 a.C.) ou até meados do século I a.C., para a biblioteca de Alexandria, no Egito.[10] Os tradutores não se limitaram a traduzir os livros conside­rados canônicos pelos judeus. Eles traduziram os demais livros judaicos disponíveis. E, a julgar pelos manuscritos existentes, deram um arranjo tópico à biblioteca judaica, na seguinte ordem:

Livros da Lei: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.

Livros de História: Josué, Juízes, Rute, 1-2 Samuel, 1-2 Reis (chamados 1-2-3-4 reinados), 1-2 Crônicas, 1-2 Esdras (o primeiro apócrifo), Neemias, Tobias, Judite e Ester.

Livros de Poesia e Sabedoria: Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cantares, Sabedoria de Salomão, Sabedoria de Siraque (ou Eclesiástico).

Livros Proféticos: Profetas Menores; Profetas Maiores: Isaías, Jeremias, Baruque, Lamentações, Epístola de Jeremias, Ezequiel, e Daniel (incluindo as histórias de Susana, Bel e o Dragão e o cântico dos Três Varões).

Alguns desses livros foram escritos posteriormente, em grego, possivelmente por judeus alexandrinos, e foram incluídos na biblioteca judaica de Alexandria, tais como Primeiro e Segundo Esdras, adições a Ester, Sabedoria, e a Epístola de Jeremias. Nem sempre todos estes livros estão presentes nos manuscritos antigos da Septuaginta. O Códice Vaticano (B) omite Primeiro e Segundo Macabeus (canônicos para a Igreja Católica) e inclui Primeiro Esdras (não canônico para a Igreja Católica). O Códice Sináitico (À) omite Baruque (canônico para Roma), mas inclui o quarto livro dos Macabeus (não canônico para Roma). O Códice Alexandrino (A) inclui o Primeiro Livro de Esdras e o Terceiro e Quarto Livros dos Macabeus (apócrifos para Roma).

O que se pode concluir daí é que, quando a Septuaginta era copiada, alguns livros não canônicos para os judeus eram também copiados. Isso poderia ter ocorrido por ignorância quanto aos livros verdadeiramente canônicos. Pessoas não afeiçoadas ao judaísmo ou mesmo desinteressadas em distinguir livros canônicos dos não canô­nicos tinham por igual valor todos os livros, fossem eles original­mente recebidos como sagrados pelos judeus ou não. Mesmo aqueles que não tinham os demais livros judaicos como canônicos certamente também copiavam estes livros, não por considerá-los sagrados, mas apenas para serem lidos. Por que não copiar livros tão antigos e interessantes?

Mesmo pessoas bem intencionadas podem ter sido levadas a rejeitar alguns dos livros canônicos, ou a aceitar como canônicos alguns que não o fossem, por ignorância ou má interpretação da história do cânon. Convém lembrar que, embora o testemunho do Espírito Santo seja a principal regra de canonicidade por parte da igreja como um todo, mesmo assim, o crente ainda tem uma natureza pecami­nosa que não o livra totalmente de incidir em erro, inclusive quanto ao assunto da canonicidade. Isto acontece especialmente em épocas de tran­sição, como foi o caso de Agostinho que defendeu os livros apócri­fos, embora de modo dúbio, e depois o de Lutero, o qual colocou em dúvida a canonicidade da carta de Tiago.
A Vulgata

Como já foi mencionado, ao traduzir a Vulgata, Jerônimo também incluiu alguns livros apócrifos. Não o fez, contudo, por considerá-los canônicos, mas apenas por considerá-los úteis, como fontes de informação sobre a história do povo judeu.

Na Idade Média a versão francamente usada pela igreja foi a Vulgata latina. A partir dela e da Septuaginta também foram feitas outras traduções. Ora, multiplicando-se o erro, e afastando-se cada vez mais a igreja da verdade (como aconteceu crescentemente nesse período), tornou-se mais e mais difícil distinguir entre os livros que deveriam ser considerados canônicos ou não. Esses livros nunca foram completa­mente aceitos, mesmo nessa época. Mas, por estarem incluídos nessas versões, a igreja em época de trevas, geralmente falando, não teve discernimento espiritual para distinguir entre livros apócrifos e canônicos.

Por fim, no Concílio de Trento, em 1546, também em reação contra os protestantes, que reconheceram apenas o cânon hebraico, a igreja de Roma declarou canônicos os livros apócrifos relacionados acima, bem como autoritativas as tradições orais: “O Sínodo... recebe e venera todos os livros, tanto do Antigo como do Novo Testamento... assim como as tradições orais.” A seguir são relacionados todos os livros considerados canônicos, incluindo os apócrifos. Concluindo, o decreto adverte:

Se qualquer pessoa não aceitar como sagrado e canônico os livros mencionados em todas as suas partes, do modo como eles têm sido lidos nas igrejas católicas, e como se encontram na antiga Vulgata latina, e deliberadamente rejeitar as tradições antes mencionadas, seja anátema.[11]

A igreja grega seguiu mais ou menos os passos da igreja ocidental. Houve sempre dúvida na aceitação dos apócrifos, mas, no Concílio de Trulano, em 692, foram todos aceitos (quatorze). Ainda assim, como sempre houve reservas quanto à plena aceitação de muitos deles, a igreja grega, em 1672, acabou reduzindo para quatro o número dos apócrifos aceitos: Sabedoria, Eclesiástico, Tobias e Judite.[12]
Conclusão

Por ironia da História, a Vulgata de Jerônimo, o qual não considerava canônicos os livros apócrifos,[13] veio a ser a principal responsável pela inclusão destes mesmos livros no cânon católico.

A obra dos reformadores foi maior do que se pode pensar à primeira vista. Eles não apenas redescobriram as doutrinas básicas do evangelho, como a doutrina da salvação pela graça mediante a fé. Eles redescobriram também o cânon. Graças a eles e ao testemunho do Espírito Santo, a igreja protestante reconhece como canônicos, com relação ao Antigo Testamento (é claro), os mesmos livros que Jesus e os apóstolos, e os judeus de um modo geral sempre reconheceram.

Alguns dos apócrifos são realmente úteis como fontes de informação a respeito de uma época importante da história do povo de Deus: o período inter-testamentário. Os protestantes reconhecem o valor histórico deles. Seguindo a prática dos primeiros cristãos, as edições modernas protestantes da Septuaginta normalmente incluem os apócrifos, e até algumas Bíblias protestantes antigas os incluíam, no final,, apenas como livros históricos.

Mas as igrejas reformadas excluíram totalmente os apócrifos das suas edições da Bíblia, e, “induziram a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira, sob pressão do puritanismo escocês, a declarar que não editaria Bíblias que tivessem os apócrifos, e de não colaborar com outras sociedades que incluíssem esses livros em suas edições.”[14] Melhor assim, tendo em vista o que aconteceu com a Vulgata! Melhor editá-los separadamente.
O CÂNON DO NOVO TESTAMENTO

Por motivos óbvios, os judeus não aceitam os livros do Novo Testamento como canônicos. Se não reconheceram a Jesus como o Messias, não poderiam aceitar os livros do Novo Testamento como inspirados. Felizmente, entretanto, não precisamos falar de um cânon protestante e de um cânon católico do NT, visto que todos os ramos do cristianismo — incluindo a igreja oriental — aceitam exatamente os mesmos vinte e sete livros, como os temos em nossas Bíblias.

É claro, entretanto, que não se poderia esperar que todos os vinte e sete livros do Novo Testamento viessem a ser imediata e simultaneamente reconhecidos como inspirados, por todas as igrejas, logo na época em que foram escritos. Algum tempo seria necessário para que os quatro Evangelhos, o livro de Atos, as epístolas, e o livro de Apocalipse alcançassem todas as igrejas. Afinal, no final do primeiro século e no início do segundo a igreja já havia se espalhado por três continentes: Europa, Ásia e norte da África. Além disso, é provável que haja um intervalo de quase cinqüenta anos entre a data em que o primeiro e o último livro do Novo Testamento foram escritos.[15] Por fim, deve-se considerar ainda que, embora todos os livros canô­nicos sejam inspirados, nem todos têm a mesma importância ou volume. É natural esperar que cartas pequenas como Judas, e as duas últimas cartas de João, fossem bem menos mencionadas do que os Evangelhos, Atos, Romanos, etc.

Também é preciso observar que havia outros livros cristãos antigos: evangelhos, cartas, atos, apocalipses, etc. Alguns desses livros foram escritos por crentes piedosos do primeiro e segundo séculos, outros eram indevidamente atribuídos aos apóstolos ou aos seus contemporâneos. Algum tempo, é claro, seria necessário para que a igreja, de um modo geral, de posse já de todos os livros canônicos, bem como de muitos outros não canônicos, viesse a avaliar a autoria, teste­munho externo e interno, e discernir, pela ação do Espírito Santo, quais livros realmente pertenceriam ao cânon. Isso tudo, entretanto, ocorreu de modo surpreendentemente rápido, de maneira que antes que cem anos se passassem, praticamente todos os livros do Novo Testa­mento já eram conhecidos, reunidos, reverenciados e tidos como autoritativos, conforme atestam as evidências históricas existentes.
Critérios de Canonicidade dos Livros do Novo Testamento

A principal questão teológica com relação ao cânon do NT diz respeito ao critério ou critérios que determinaram a canonicidade dos livros do NT. Por que os vinte e sete livros, e apenas estes, incluídos em nossas Bíblias são aceitos como canônicos? A resposta a esta pergunta encontra-se, em última instância, na doutrina da inspiração. São canônicos os livros que foram inspirados por Deus. Mas como foi reconhecida a inspiração dos livros do NT? Quais os critérios que levaram a igreja a aceitar todos os vinte e sete livros, e apenas estes, como inspirados e conseqüentemente canônicos?
1) O TESTEMUNHO INTERNO DO ESPÍRITO SANTO

O critério essencial é o mesmo que levou ao reconhecimento do Antigo Testamento: o testemunho interno do Espírito Santo na igreja como um todo. É certo, como já foi mencionado, que crentes individuais podem falhar em identificar ou não certos livros como canônicos — especialmente em épocas de transição, como nos primei­ros séculos da igreja na nova dispensação e durante o período da Reforma. Não obstante, o testemunho da igreja como corpo (não como instituição ou indivíduos isoladamente) é o principal critério de verifi­ca­ção da canonicidade das Escrituras.

Isso não significa dizer, entretanto, que seja a igreja quem tenha determinado o cânon. Quem determinou o cânon foi o Espírito Santo que o inspirou. A igreja apenas o reconheceu, o discerniu, pela iluminação do próprio Espírito Santo, que habita nos seus membros individuais. William Whitaker, professor de Teologia na Universidade de Cambridge, no livro Disputation on Holy Scripture, publicado em 1588, e freqüentemente citado na Assembléia de Westminster, resume o papel da igreja como corpo e dos crentes individuais com relação ao reconhecimento do cânon, com as seguintes palavras: “...a autoridade da igreja pode, a princípio mover-nos a reconhecermos as Escrituras: mas depois, quando nós mesmos lemos as Escrituras, e as compreende­mos, concebemos uma fé verdadeira...”[16] — isto é, somos convencidos pelo Espírito da sua veracidade e identidade.

As evidências históricas deste reconhecimento do cânon do Novo Testamento pela igreja são abundantes.

Logo no final do primeiro século e início do segundo (até 120 d.C.), boa parte dos livros do Novo Testamento já era conhecida, citada e até reverenciada como autoritativa pelos primeiros escritos cristãos que chegaram até nós. É o caso da Carta de Clemente de Roma aos Coríntios, escrita por volta do ano 95; das cartas de Inácio de Antio­quia da Síria, bispo que morreu martirizado em Roma entre 98 e 117; da Epístola aos Filipenses, de Policarpo, discípulo de João que morreu martirizado, escrita pouco antes do martírio de Inácio; etc. Apenas a segunda e terceira Carta de João e a carta de Judas não são menciona­das nestes escritos mais antigos; obviamente por falta de oportunidade, visto serem muito pequenas.

Na metade do segundo e no terceiro século, quando já há mais abundância de escritos, preservados,[17] todos os livros do NT são citados, e todos, de modo geral, reconhecidos como autoritativos, embora a canonicidade de alguns livros seja colocada em dúvida ou rejeitada por um ou outro autor antigo. Orígenes de Alexandria (185-250) e Eusébio de Cesaréia (265-340), seguindo Orígenes, por exem­plo, parecem lançar dúvidas sobre Hebreus, 2 Pedro, 2 e 3 João, Tiago e Judas. Neste período, o assunto da canonicidade dos livros foi debatido e defendido, tendo em vista as posições heréticas, como as de Marcião e outros representantes do gnosticismo. Em 367, Atanásio apresenta uma lista dos livros canônicos do Novo Testamento, incluindo todos os vinte e sete livros, e apenas estes. Finalmente, em 397, no Concílio de Cartago, a igreja reconheceu oficialmente todos os vinte e sete livros, e só estes, como canônicos. Esta decisão foi ratificada pelo Concílio de Hipona, em 419.
2) ORIGEM APOSTÓLICA

Pelo lado humano, a origem apostólica foi, sem dúvida, o critério mais importante considerado pela igreja, para o reconhecimento da canonicidade do Novo Testamento. Assim como os profetas (no sentido lato) do Antigo Testamento eram a voz autorizada de Deus para o povo — e de algum modo, todos os livros do AT têm origem profética — assim também a origem apostólica autenticava um livro como autoritativo, e conseqüentemente canônico. Os apóstolos eram as testemunhas autorizadas escolhidas por Jesus, como dirigentes da igreja que surgia. Para os pais da igreja este era o critério mais importante. Fosse possível provar que um determinado livro era de origem apostólica, isso seria suficiente para ser reconhecido como canônico. Por outro lado, havendo dúvida quanto à origem apostólica fatalmente haveria relutância — como realmente houve — na aceitação da canonicidade de um livro.

O fato é que todos os livros aceitos como canônicos eram de autoria apostólica, ou tidos como de origem apostólica. Mesmo Marcos está ligado a Pedro (foi até chamado de Evangelho de Pedro), Lucas e Atos provinham da autoridade de Paulo; e Hebreus era também considerado de Paulo; Tiago e Judas, dos apóstolos que tinham esse nome.
3) O CONTEÚDO DOS LIVROS

O conteúdo dos livros também foi sempre um critério importante no reconhecimento da canonicidade dos livros do NT. Livro algum, em desacordo com o padrão doutrinário e moral, ensinado por Jesus e os apóstolos, seria recebido como autoritativo. Foi assim que muitos escritos heréticos foram repudiados pela igreja. Foi com base nesta regra, também, que muitos livros apócrifos foram rejeitados, visto que em franco desacordo com o caráter, simplicidade, doutrinas e ética dos livros canônicos.
4) AS EVIDÊNCIAS INTERNAS DO NT

Embora os critérios acima tenham sido decisivos, as evidências internas do próprio NT, quanto à inspiração e autoridade de alguns desses livros, revestem-se de especial importância. É claro que não se deve esperar encontrar uma lista completa do cânon do Novo Testamento dentro do próprio Novo Testamento. Não é assim que Deus age. O lado humano da revelação (o instrumento) não é eclipsado pelo divino — não é assim na inspiração (as Escrituras não são pneuma­grafadas), não é assim na preservação (as Escrituras não são pneumapreservadas), e também não é assim no cânon (as Escrituras não são pneumacanonizadas). O elemento fé permeia toda a Bíblia, e “a fé é a convicção de fatos que se não vêem”(Hb 11:1).

Isto, entretanto, não significa de modo algum que os autores dos livros do Novo Testamento e seus primeiros leitores não tivessem consciência da inspiração desses livros. Alguns assim afirmam dizendo que, de início, as cartas e Evangelhos foram escritos e recebidos como cartas e livros comuns, sem pretensão de inspiração ou canonicidade, por parte dos autores e leitores. Contudo tal afirmação não corresponde aos fatos. Há, no prório Novo Testamento, evidências claras da inspiração, autoridade e conseqüente canonicidade desses livros. O apóstolo Paulo não escreve como alguém que aconselha, exorta ou en­si­na de si mesmo, mas com autoridade divina, extraordinária. De onde provém a autoridade de Paulo, ao exortar os Gálatas (1:8), dizendo: “...ainda que nós, ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evan­gelho que vá além do que vos tenho pregado, seja anátema”? Ele explica logo a seguir, quando afirma: “...o evangelho por mim anun­ciado não é segundo o homem; porque eu não o recebi, nem o aprendi de homem algum, mas mediante revelação de Jesus Cristo” (Gl 1:11,12).

Que os livros do NT não tinham caráter meramente circuns­tancial, específico e momentâneo é evidente nas exortações no sentido de que fossem lidos publicamente (o que só se fazia com as Escrituras), e em outras igrejas (1 Ts 5:27; Cl 4:16). Paulo afirma que os tessaloni­censes receberam as suas palavras como palavra de Deus; e ele confirma que realmente são:

Outra razão ainda temos nós para incessantemente dar graças a Deus: é que, tendo vós recebido a palavra que de nós ouvistes, que é de Deus, acolhestes não como palavra de homem, e sim, como, em verdade é, a palavra de Deus, a qual, com efeito, está operando eficazmente em vós, os que credes (1 Ts 2:13).

O apóstolo Pedro também coloca os escritos de Paulo em pé de igualdade com as Escrituras, reconhecendo autoridade igual à do Antigo Testamento:

...e tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor, como igualmente o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada, ao falar acerca destes assuntos, como de fato costuma fazer em todas as suas epístolas, nas quais há certas coisas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam, como também deturpam as demais Escrituras, para a própria destruição deles (2 Pe 3:15-16).

Em 1 Timóteo 5:18, o texto de Lucas 10:7 é chamado de Escritura, juntamente com Deuteronômio 25:4: “Pois a Escritura declara: Não amordaces o boi, quando pisa o grão (Dt 25:4). E ainda: O trabalhador é digno do seu salário” (Lc 10:7).
Os Livros Disputados

Como já mencionado, alguns pais da igreja tiveram dúvidas quanto à canonicidade de alguns livros do NT. Enquanto a maioria dos livros praticamente nunca tiveram a sua canonicidade disputada pela igreja, outros sofreram alguma resistência, embora parcial, para serem aceitos como canônicos. Os principais foram: Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 João, Judas e Apocalipse.

Entretanto, não é difícil compreender as razões desta relutância, pois cada um desses livros apresenta uma ou outra característica que, de certo modo, justificava o zelo por parte da igreja em averiguar mais cuidadosamente a canonicidade deles. Afinal, haviam outros livros cristãos, de conteúdo fiel e ortodoxo, que poderiam ser confundidos, se não houvesse discernimento por parte da igreja; a exemplo do que aconteceu com os apócrifos do Antigo Testamento, pela Igreja Católica.

Não é muito difícil compreender os motivos que levaram os referidos livros a terem sua canonicidade disputada. No caso de Hebreus, o problema estava na autoria e estilo. A tradição dizia ser de Paulo, mas não há o nome do autor, como é costume de Paulo. O estilo também não é exatamente o mesmo, embora haja muita semelhança. Com relação a Tiago, a aparente discrepância doutrinária com as demais cartas e a possibilidade de haver sido escrita por outro Tiago certamente dificultaram o reconhecimento da sua canonicidade. A segunda carta de Pedro, além de, por razões desconhecidas, provavel­mente haver tido circulação limitada, apresenta alguma diferença de vocabulário e estilo, o que, segundo Jerônimo, foi a causa de alguns pais duvidarem da genuinidade da epístola.[18] Quanto a Judas e 2 e 3 João, o próprio tamanho, importância relativamente menor, e a natureza mais pessoal das duas últimas, certamente dificultaram a circulação e reconhecimento delas no cânon — no caso de Judas, a questão da origem apostólica também pesou. Já o livro de Apocalipse, o qual teve aceitação generalizada no segundo século, teve sua canonicidade posteriormente disputada, provavelmente pela dúvida lançada por Dionísio de Alexandria, seguido por Eusébio de Cesaréia, quanto à origem apostólica do livro, devido ao que consideravam diferenças de estilo entre ele e o Evangelho de João; o que o levou a atribuir o livro a um outro João.

É claro que estas dificuldades são todas aparentes. Estilo não pode ser determinante, pois a natureza do assunto pode acarretar mudança de estilo. Além disso era comum o uso de amanuenses. Tamanho “também não é documento;” e assuntos relativamente menos importantes tornam-se importantíssimos em determinadas circunstân­cias — a História da Igreja tem comprovado isso. Quantas vezes as cartas de Judas, 2 e 3 João têm sido de valor inestimável para pessoas e igrejas específicas! A “discrepância” doutrinária de Tiago já tem sido suficientemente explicada: é apenas aparente. A relutância por parte de alguns, no terceiro ou quarto séculos em reconhecer a canonicidade desses livros não deve de modo algum ser encarada como necessaria­mente depreciativa. Pelo contrário, por mais que tenham sido submeti­dos a teste, até pelos reformadores, esses livros foram aprova­dos pela História, e encontraram lugar seguro e imbatível no cânon do Novo Testamento.
Conclusão

Sejam quais forem os critérios que mais influenciaram os pais da igreja no reconhecimento dos livros do Novo Testamento, e apesar da relutância de alguns em aceitar todos os vinte e sete livros, e não obstante o grande número de livros apócrifos que surgiram nos primeiros séculos, o verdadeiro cânon teria que prevalecer. E prevale­ceu. Inspirados que eram, tinham poder espiritual inerente. E este poder manifestou-se de tal modo que todos os ramos do cristianismo alcança­ram unanimidade espantosa, de modo que desde pelo menos Atanásio, o primeiro a apresentar uma lista completa do cânon do NT, até nossos dias, não tem havido nenhuma objeção realmente séria quanto à canonicidade do NT, nos três principais ramos do cristianismo.




* Extraído de Paulo R. B. Anglada, Sola Scriptura: A Doutrina Reformada das Escrituras (São Paulo: Editora Os Puritanos, 1998), 33-48.

[1] A. Bentzen, Introdução ao Antigo Testamento (São Paulo: ASTE, 1968. vol.1.), 29.


[2] Ordem dos escribas que originou-se com Esdras, e que se estendeu até 200 AD, cuja função era preservar puro o texto bíblico.


[3] O que funcionava mais ou menos como os modernos dígitos verificadores usados nos compu­tadores para evitar erros em informações importantes como número de contas bancárias, CPF, CGC, etc.


[4] Ele menciona vinte e dois, ao invés de vinte e quatro, porque com certeza, originalmente, Rute era agrupado com Juízes e Lamentações com Jeremias.


[5] Capítulo primeiro.


[6] Gleason L. Archer Jr, Merece Confiança o Antigo Testamento? (São Paulo: Vida Nova, 1979), 76.


[7] R. L. Harris, Inspiration and Canonicity of the Bible; An Historical and Exegetical Study, 216; Wilbur N. Pickering, The Identity of the New Testament Text, 93-96; e Archer Jr, Merece Confiança o Antigo Testamento?, 51.


[8] “...é provável que certas porções do Antigo Testamento siríaco, em primeiro lugar o Pentateuco, tenham sido introduzidos naquele reino nos meados do primeiro século de nossa era” (R. A. H. Gunner, Texto e Versões do Antigo Testamento. Versão Siríaca,em J. D. Douglas, ed., O Novo Dicionário da Bíblia. vol. 3, 3 ed. (São Paulo: Vida Nova, 1979): 1598.


[9] Com exceção de Enoque 1:9, aludido em Judas 14-16; contudo, não citado autoritativamente, e sim como qualquer outro autor; assim como Paulo cita Arato em Atos 17:28 e Menander em 1 Coríntios 15:33.


[10] A biblioteca de Alexandria, segundo alguns, chegou a ter cerca de duzentos mil volumes.


[11] R. L. Harris, Inspiration and Canonicity of the Bible; An Historical and Exegetical Study (Grand Rapids: Zondervan, 1957), 192.


[12] Archer Jr, Merece Confiança o Antigo Testamento?, 80.


[13] Jerônimo foi o primeiro a usar o termo apócrifo.


[14] A. Bentzen, Introdução ao Antigo Testamento, 49


[15] A Epístola aos Gálatas foi escrita por volta de 48/50 e o Livro de Apocalipse entre 81/96.


[16] Citado em Wayne Spear, "The Westminster Confession of Faith and Holy Scripture," Premise 3:4 (1996): 9. Internet, http://www.capo.org/premise/96/april/p960409.html


[17] Tais como os de Justino Mártir (165), Irineu (170), Clemente de Alexandria e Tertuliano de Cartago (200).


[18] M. Tenney, Nuestro Nuevo Testamento; Una Perspectiva Historico Analitica (Chicago: Editoral Moody, 1973), 477
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